O cenário eleitoral brasileiro, que já viu discursos inflamados em favor da privatização de estatais, parece ter mudado de rota. O que antes era um trunfo para atrair votos, como o “raio privatizador” de candidatos ou a promessa de um “posto Ipiranga” com Paulo Guedes, hoje se tornou um tema evitado por políticos. A percepção geral, segundo analistas, é que a privatização deixou de ser um tema que “pega” no eleitorado, com outras pautas, como segurança pública e questões judiciais, ganhando precedência.

O declínio do discurso privatista

A ascensão do discurso privatista no Brasil remonta a anos recentes, impulsionada por escândalos de corrupção em estatais e pela busca por eficiência na gestão pública. Figuras políticas usaram a venda de empresas estatais como bandeira, prometendo um enxugamento do Estado e maior dinamismo econômico. No entanto, a realidade política atual sugere que essa estratégia perdeu sua eficácia. Especialistas apontam que as eleições se tornaram mais uma disputa de narrativas do que de propostas concretas, e a privatização não figura como um ponto forte nessa dinâmica. A fonte do Money Times, ligada à área política de um grande banco, corrobora essa visão, afirmando que a defesa de privatizações, outrora presente em 2018, hoje é raramente ouvida.

Novas prioridades e a perda de apelo

As razões para essa mudança de foco são multifacetadas. O economista Márcio Holland, da FGV EESP, sugere que o tema não gera mais a quantidade de votos que antes atraía, e pode até mesmo gerar rejeição. A fonte política anônima acrescenta que, embora pesquisas como a do Poder360 indiquem que 54% dos brasileiros apoiam a venda de estatais, esse apoio não se traduz em apelo eleitoral: “Ninguém vai lutar por privatização”. A prioridade do eleitorado parece ter migrado para questões mais imediatas e tangíveis. A ideia de um “gabinete enxuto” e a economia gerada pela venda de estatais não ressoam mais com a mesma intensidade.

Joias da coroa e o dilema das estatais

No âmbito nacional, Petrobras e Banco do Brasil continuam sendo as principais joias da coroa estatal. A Petrobras, em particular, tem apresentado recordes de lucratividade e descoberto novas fronteiras de exploração, como a Margem Equatorial, em um cenário de preços de petróleo favoráveis. O analista Flavio Conde, da Levante, destaca que a Petrobras se tornou uma empresa “séria” e que sua privatização seria um erro que custaria votos ao governo. O senador Rogério Marinho, por sua vez, declarou que, embora outras estatais possam ser avaliadas, não há planos para privatizar a Petrobras. O Banco do Brasil, apesar de um lucro menor em balanços recentes, enfrenta desafios setoriais temporários ligados ao agronegócio. A ex-presidente da Caixa, Daniella Marques, defende que mesmo empresas como os Correios perderam sua janela de privatização, mas sugere que outras estatais, incluindo o Banco do Brasil, poderiam ser consideradas.

Estatais estaduais e a incerteza

Em nível estadual, empresas como Banrisul, Sanepar e Cemig ainda figuram na bolsa, mas os candidatos que lideram as pesquisas em seus respectivos estados demonstram relutância em se comprometer com privatizações. O caso de Sergio Moro, que criticou a venda da Copel e não se comprometeu com a privatização da Sanepar, exemplifica essa tendência. Mesmo em estados com contas públicas sólidas, como o Paraná, a privatização da Sanepar é vista com ceticismo por analistas e pela população. Em Minas Gerais, o cenário para a Cemig é semelhante, com candidatos evitando o tema e o Banco Safra apontando dificuldades regulatórias e políticas para qualquer processo de venda. A percepção é que, mesmo que a privatização seja defendida, ela exigiria um longo e complexo processo.

O cenário atual sugere que a onda privatista, que parecia imparável há alguns anos, perdeu força no Brasil. A complexidade política, a mudança nas prioridades do eleitorado e a resiliência de algumas estatais estratégicas indicam que o “raio privatizador” de outrora pode ter se tornado um mero lampejo em um debate mais amplo sobre o papel do Estado na economia. O futuro das estatais remanescentes dependerá de uma complexa interação entre gestão, desempenho econômico e, inevitavelmente, as prioridades políticas de cada momento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times