A promessa de que a inteligência artificial revolucionaria a produtividade no ambiente corporativo enfrenta um obstáculo inesperado: a própria estrutura de gestão das empresas. Segundo dados do relatório Global AI at Work 2026, do Boston Consulting Group (BCG), embora 42% dos funcionários relatem economizar cerca de oito horas semanais com o uso de ferramentas de IA, a maioria não utiliza esse tempo para tarefas estratégicas. O fenômeno, que ecoa o famoso paradoxo de produtividade de Robert Solow, aponta para uma desconexão profunda entre a disponibilidade tecnológica e a execução operacional.

O problema, segundo David Martin, líder global da prática de Pessoas e Organização do BCG, é que a alta gestão falha ao comunicar a visão e a estratégia para a adoção dessas ferramentas. Essa ausência de clareza não apenas impede a otimização do tempo ganho, mas também alimenta um clima de incerteza entre os colaboradores, que se sentem perdidos quanto aos objetivos reais da organização ao implementar sistemas automatizados.

O fim da era do tokenmaxxing

O frenesi em torno da IA levou muitas empresas a adotar a prática do 'tokenmaxxing', que consiste em incentivar o uso indiscriminado de modelos de linguagem para inflar métricas de adoção. Em gigantes como a Amazon e a Meta, o foco em volume de uso superou a busca por valor real. O resultado foi uma explosão nos custos computacionais, que, em muitos casos, superam os ganhos de produtividade obtidos pelos funcionários.

Essa estratégia, contudo, mostra sinais de exaustão. A própria Microsoft e a Uber observaram que os custos de licenciamento e processamento de tokens estão corroendo o orçamento de TI, levando as companhias a repensar a distribuição de recursos. O movimento atual indica uma transição forçada: empresas estão abandonando métricas superficiais de uso em favor de uma análise mais rigorosa sobre o retorno sobre o investimento e a real utilidade dessas ferramentas para o negócio.

Falha de imaginação na liderança

O desafio central, conforme discutido no Fortune COO Summit, reside na mentalidade dos gestores. Treinados para focar em organogramas e headcount, muitos líderes parecem incapazes de integrar a IA ao modelo operacional da empresa de forma orgânica. A pressão por adoção sem um propósito claro cria um ambiente onde os funcionários utilizam a tecnologia por obrigação, e não por necessidade estratégica.

Além disso, a forma como a IA é apresentada influencia o comportamento da equipe. Quando a tecnologia é tratada como um substituto do capital humano, o medo da substituição cresce, inibindo a colaboração. O compartilhamento de boas práticas torna-se escasso, pois os funcionários temem perder sua vantagem competitiva individual, prejudicando a agilidade organizacional como um todo.

Cultura de medo versus colaboração

A cultura corporativa é, portanto, o determinante final do sucesso ou fracasso da implementação da IA. A pesquisa do BCG enfatiza que empresas que investem em treinamento e capacitação conseguem atenuar o medo da automação, transformando a IA em uma aliada. Sem esse suporte, o medo se torna o principal inibidor de uma cultura de compartilhamento, essencial para que a tecnologia gere valor real.

Para o ecossistema de negócios, a lição é clara: a tecnologia não corrige uma gestão defasada. A transição para uma estrutura que valorize a colaboração humana, apoiada por ferramentas inteligentes, exige que os executivos saiam da zona de conforto e definam estratégias que integrem a IA aos processos existentes, em vez de tratá-la como um acessório isolado.

O futuro da produtividade

O que permanece incerto é se as empresas conseguirão ajustar suas estruturas de governança a tempo de colher os frutos prometidos pela IA. O cenário atual sugere que a fase de experimentação desordenada está perdendo espaço para uma fase de maior pragmatismo e fiscalização de custos.

Observar como as lideranças de mercado irão redefinir suas metas de produtividade será fundamental. A questão não é mais sobre quanto a IA pode fazer, mas sobre o que as empresas estão dispostas a mudar em sua própria cultura para que essa tecnologia deixe de ser um custo e passe a ser um motor de eficiência real.

Com reportagem de [Brazil Valley](/categoria/Inteligência Artificial)

Source · Fortune