A adoção desenfreada de agentes de inteligência artificial nas empresas atingiu um ponto de inflexão crítico. O que começou como uma estratégia de ganho de produtividade individual transformou-se em um desafio de governança corporativa, à medida que funcionários, incentivados por políticas internas e facilidade de uso, criam milhares de assistentes autônomos sem supervisão centralizada. Segundo a Xataka, citando reportagem do Wall Street Journal, a popularização de plataformas comerciais para criação de agentes e assistentes permitiu que trabalhadores sem formação técnica automatizassem tarefas cotidianas, resultando em um ecossistema fragmentado e de difícil controle.

O caso da empresa de saúde DaVita ilustra a escala do fenômeno: mais de 10 mil agentes teriam sido criados internamente por colaboradores, de acordo com a reportagem citada. Essa proliferação, embora reflita um entusiasmo pela inovação, expõe as companhias a riscos significativos de segurança da informação e a custos operacionais inesperados, uma vez que a falta de coordenação impede a otimização de recursos computacionais e de consumo de tokens.

O desafio da descentralização operacional

A natureza do boom atual difere de ondas tecnológicas anteriores pela baixa barreira de entrada. Antigamente, a implementação de sistemas complexos dependia estritamente dos departamentos de TI, que validavam a segurança e a arquitetura da solução. Hoje, o desenvolvimento de um agente de IA ocorre muitas vezes no computador pessoal do funcionário, operando fora dos protocolos de compliance da empresa.

Essa descentralização cria silos de dados e processos. Quando cada funcionário desenvolve seu próprio agente para realizar tarefas idênticas — como resumir e-mails ou gerar relatórios —, a empresa perde a capacidade de padronizar fluxos de trabalho. A ausência de uma visão centralizada torna difícil para os gestores técnicos auditar o que esses agentes estão acessando ou como estão processando informações confidenciais, criando uma vulnerabilidade latente na infraestrutura corporativa.

Ineficiência de custos e duplicação de tarefas

O aspecto financeiro é outro ponto de tensão. O uso de agentes de IA costuma ser cobrado por consumo (como tokens), e a redundância de funções eleva as faturas de tecnologia a patamares insustentáveis. A analogia é simples: as empresas estão pagando por dezenas de táxis individuais para transportar funcionários ao mesmo destino, em vez de investir em uma estrutura de transporte coletivo eficiente.

Além do desperdício financeiro, a duplicação de esforços gera ineficiência operacional. Enquanto um funcionário utiliza um agente para automatizar um fluxo de trabalho, um colega em outro departamento pode estar desenvolvendo uma solução similar, sem saber que o esforço já foi realizado. A falta de uma biblioteca compartilhada de “skills” ou agentes padronizados impede que a organização capture os ganhos de escala prometidos pela IA.

Tensões na governança e nos modelos de trabalho

As empresas estão reagindo de formas distintas, evidenciando a falta de consenso sobre o modelo ideal. Segundo a Xataka, algumas companhias buscam criar plataformas centralizadas que permitam o compartilhamento de competências entre funcionários e o controle rigoroso pelo time de TI, enquanto outras optam por medidas restritivas. No caso da DaVita, a empresa chegou a restringir ou proibir o uso de ferramentas de agentes de IA para conter a proliferação descontrolada, de acordo com os relatos citados.

Essas tensões colocam em lados opostos a necessidade de agilidade dos colaboradores e a exigência de segurança dos reguladores e gestores. O futuro aponta para uma consolidação, na qual plataformas de IA oferecerão funções nativas de governança — como gestão de gastos, catálogo corporativo de agentes, papéis e permissões (RBAC) e trilhas de auditoria — permitindo que a administração central retome o controle sem sufocar completamente a inovação na ponta.

Perspectivas e o papel da TI centralizada

Permanece a incerteza sobre como equilibrar a autonomia individual com a necessidade de governança corporativa. Há um direcionamento de mercado para agentes que automatizam rotinas e a comunicação interna, mas o modelo de “um agente por funcionário” pode ser insustentável.

O que se observa é uma transição necessária: o mercado tende a sair da fase de experimentação caótica para uma fase de maturidade, em que a infraestrutura de IA será tratada com o mesmo rigor que qualquer outro sistema crítico de TI. A questão central não é mais o que a IA pode fazer, mas como as empresas podem gerenciar essa nova força de trabalho digital antes que o excesso de automação se torne um custo operacional proibitivo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka