A psilocibina, o composto ativo dos chamados “cogumelos mágicos”, pode ser capaz de prevenir um dos efeitos colaterais mais debilitantes da quimioterapia. A descoberta, publicada na revista Science por pesquisadores do MD Anderson Cancer Center da Universidade do Texas, aponta um caminho inédito para proteger pacientes de danos nervosos que podem comprometer o tratamento e a qualidade de vida.

O alvo é a neuropatia periférica induzida por quimioterapia (CIPN), uma condição que afeta até 75% dos pacientes com dor, formigamento e dormência nas mãos e nos pés. Até hoje, as opções terapêuticas se limitavam a aliviar os sintomas. A pesquisa com a psilocibina, embora ainda em estágio inicial, é a primeira a demonstrar um mecanismo com potencial preventivo, sinalizando um novo capítulo no uso de psicodélicos para problemas médicos complexos.

O mecanismo protetor

A quimioterapia, ao atacar células cancerígenas, pode danificar colateralmente os microtúbulos, estruturas que funcionam como “ferrovias” para transportar as mitocôndrias — as usinas de energia da célula — até as terminações nervosas. Sem esse suprimento, os nervos se desgastam e retraem. O estudo, conduzido em camundongos e em neurônios humanos em laboratório, mostrou que a psilocibina, após ser convertida em seu metabólito ativo, a psilocina, ativa um receptor conhecido como 5HT2A.

Essa ativação desencadeia uma cascata de sinais moleculares que parece proteger o sistema de transporte mitocondrial dos efeitos tóxicos da quimioterapia. Nos testes, os camundongos que receberam psilocibina antes da quimioterapia mantiveram uma sensibilidade à dor normal, em contraste com o grupo de controle, que demonstrou hipersensibilidade. A leitura é que a substância age como um escudo, ajudando os nervos a suportar o estresse do tratamento oncológico e a manter sua função.

Da bancada à clínica

Se os resultados forem replicados em humanos, as implicações são vastas. Prevenir a neuropatia permitiria que mais pacientes completassem seus ciclos de quimioterapia sem necessidade de redução de dose ou interrupções, o que poderia melhorar os desfechos do tratamento do câncer. Os próprios pesquisadores, no entanto, são enfáticos no alerta: o uso de psilocibina sem supervisão médica durante a quimioterapia é perigoso, pois as interações medicamentosas são desconhecidas.

O próximo passo é a validação clínica. Um ensaio randomizado com cerca de 80 pacientes com câncer de mama, colorretal e de cabeça e pescoço está programado para começar em novembro, com resultados esperados em aproximadamente cinco anos. O estudo se soma a um corpo crescente de evidências sobre o potencial terapêutico dos psicodélicos, já investigados para tratar depressão e ansiedade em pacientes oncológicos.

A pesquisa ilustra uma mudança de paradigma: substâncias antes relegadas à contracultura estão sendo dissecadas com o mais alto rigor científico. O desafio agora é traduzir a promessa bioquímica da bancada em uma terapia segura e eficaz, um processo que exige paciência, cautela e método.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · New Scientist