A imagem é quase um clichê da cultura pop: um veículo esportivo corta curvas sinuosas sob chuva intensa, enquanto o motorista mantém uma postura de controle absoluto, ignorando as leis da física e da prudência. É uma fantasia vendida com precisão cirúrgica por departamentos de marketing, mas que, segundo o Insurance Institute for Highway Safety (IIHS), tem consequências tangíveis e perigosas nas vias públicas americanas. Ao analisar mais de 2.500 anúncios, o órgão watchdog constatou que a velocidade tornou-se a narrativa central da indústria, eclipsando qualquer mensagem sobre segurança ou responsabilidade.

O marketing além da performance

A transição da publicidade automotiva é reveladora. Enquanto o mercado de consumo migrou para veículos maiores, como SUVs e picapes, a estratégia de venda desses modelos adotou a linguagem dos antigos esportivos de nicho. Dados do IIHS indicam que a probabilidade de um anúncio de SUV ser focado em performance saltou de 28% para 45% entre 2018 e 2022. O que antes era um apelo restrito a cupês de luxo agora é a norma para veículos familiares, criando uma dissonância entre a utilidade real do automóvel e a promessa de potência ininterrupta entregue ao consumidor.

A normalização do risco

O mecanismo por trás desse fenômeno é a legitimação do excesso. O IIHS argumenta que a publicidade não apenas reflete a cultura, mas a molda ativamente ao sugerir que o desempenho extremo é uma experiência acessível ao motorista comum. Quando o marketing ignora a segurança — citada em apenas 8% dos anúncios analisados — ele desvaloriza o risco inerente ao ato de dirigir. A velocidade, nesse contexto, deixa de ser uma infração socialmente condenável e passa a ser vista como um atributo de domínio técnico do condutor.

Tensões entre segurança e mercado

As implicações desse cenário são vastas para reguladores e para a indústria. Existe uma tensão clara entre o objetivo das seguradoras de reduzir a severidade dos acidentes e o imperativo das montadoras de vender o status associado à velocidade. Para o mercado brasileiro, onde a publicidade automotiva também costuma flertar com a ideia de liberdade e potência, o debate traz um alerta sobre o papel das marcas na educação do trânsito. O custo dessa estratégia não é apenas financeiro, mas medido em fatalidades.

O futuro da mobilidade

O que permanece incerto é se a pressão social e estatística será capaz de alterar a rota criativa das montadoras. A persistência da obsessão pela velocidade em um momento de eletrificação e tecnologias de assistência ao condutor levanta questões sobre o que realmente valorizamos no ato de dirigir. Enquanto a publicidade continuar a vender a fantasia do controle absoluto, a realidade das estradas continuará a desafiar os limites da segurança. Até onde a indústria pode ir antes que o custo da velocidade se torne insustentável para a sociedade?

Com reportagem de The Drive

Source · The Drive