A recente saída de Óscar Puente do Ministério de Transportes da Espanha não encerrou o debate que ele provocou: a expansão da rede de alta velocidade (AV) e a obsessão de regiões e cidades por novas linhas, muitas vezes sem critérios comuns e a custos bilionários. Puente, conhecido por sua postura combativa, levantou a questão em um momento delicado, em meio a discussões sobre segurança e prioridades de investimento em infraestrutura ferroviária.

A obsessão pela AV: um debate nacional

Puente questionou a disposição de qualquer região espanhola em renunciar à alta velocidade, afirmando que a ausência de uma linha de TGV pode ser vista como um sinal de "segunda divisão" ou de falta de merecimento. "Analicen la historia de este país, los últimos 20, 30 años. Si no tienes AV no eres nadie. Si no tienes AV no se te trata como mereces", declarou o ex-ministro. Essa pressão política e social pela AV, segundo ele, transforma a infraestrutura em uma "herramienta política de primer orden", sem que haja um debate público sobre a real necessidade e sustentabilidade desses projetos. A discussão, que ele considera ser da "propia sociedad" e não de um partido político, expõe a dificuldade em estabelecer prioridades e critérios racionais para investimentos de grande porte.

Custos bilionários dos soterramentos

Além da expansão da rede de AV, Puente também abordou o alto custo dos soterramentos de linhas ferroviárias em áreas urbanas. Ele mencionou um cálculo aproximado de 40 bilhões de euros para a totalidade dos protocolos de soterramento em toda a Espanha — valor que, às cotações atuais, representa uma cifra da ordem de centenas de bilhões de reais. Essa demanda, assim como a da AV, é apresentada como uma exigência inegociável por muitas cidades, sob o risco de serem preteridas. O ex-ministro, que foi prefeito de Valladolid, cidade que também pleiteia um túnel ferroviário, criticou essa mentalidade, que, segundo ele, ignora os custos astronômicos e a falta de planejamento integrado. A questão dos soterramentos, aliada à expansão da AV, demonstra um padrão de investimento público que prioriza demandas localizadas em detrimento de uma visão estratégica nacional.

Implicações para o planejamento de infraestrutura

As declarações de Puente adicionam uma camada de complexidade ao debate sobre infraestrutura na Espanha. A pressão por novas linhas de AV e soterramentos, muitas vezes impulsionada por interesses políticos e regionais, pode desviar recursos de outras áreas críticas, como a manutenção e modernização da rede existente, ou de investimentos em outros modais de transporte. A falta de critérios claros e de um planejamento a longo prazo pode levar a um endividamento público insustentável e a projetos que não atendem às reais necessidades da economia e da sociedade espanhola. O desafio é equilibrar as demandas locais com a visão estratégica nacional.

O futuro da AV e as questões em aberto

O debate aberto por Óscar Puente expõe tensões estruturais no modelo de planejamento de infraestrutura espanhol. A cultura de "quem não tem AV, não é ninguém" reflete uma dinâmica em que a infraestrutura se torna moeda de troca política, dificultando a adoção de critérios objetivos de priorização. Reverter esse padrão exigiria não apenas vontade política, mas um pacto social mais amplo sobre o que a Espanha quer de sua rede de transportes nas próximas décadas — um debate que, segundo o próprio Puente, ainda está longe de acontecer.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka