É noite, e o lago central do Puy du Fou España se abre como uma cortina, revelando um palco flutuante onde um barco emerge, banhado em luzes. Diante de 4.000 espectadores, a cena de ‘El Sueño de Toledo’ paralisa a audiência, um feito que, entre outros, rendeu ao parque espanhol o título de melhor da Europa, superando a renomada Disneyland Paris. Este reconhecimento, somado a outros prêmios recentes, como o de melhor iniciativa de marketing em Londres, consolida a ascensão meteórica do Puy du Fou no cenário do entretenimento.

A conquista, anunciada em um evento em Kotor, Montenegro, pelos World Travel Awards, é um marco significativo. A votação, que combina o público e um júri de especialistas, posicionou o parque espanhol à frente de gigantes como a própria Disneyland, que por anos dominou a categoria. A notícia chega em um momento de expansão para o Puy du Fou, com a aprovação de novos hotéis e a previsão de centenas de novos empregos, mirando agora o título mundial.

O Segredo do Sucesso: Imersão Histórica

O apelo do Puy du Fou não reside em montanhas-russas vertiginosas ou em atrações de alta tecnologia, mas sim em espetáculos que transportam o visitante a outras épocas. ‘El Sueño de Toledo’, por exemplo, narra 1.500 anos de história em um palco de cinco hectares, com mais de 200 atores, cavalos e efeitos de água e fogo. Outras produções, como ‘A Pluma y Espada’, que celebra o Século de Ouro espanhol com Lope de Vega, ou ‘El Último Cantar’, focado no Cid Campeador, buscam recriar com fidelidade — ou uma versão dramatizada dela — momentos cruciais da história ibérica. A mais recente, ‘El Tambor de la Libertad’, aborda a resistência toledana às tropas napoleônicas.

Essa aposta na narrativa histórica, aliada a uma produção de alta qualidade, tem se mostrado uma fórmula vencedora. O parque registrou 1,72 milhão de visitantes em 2025, seu melhor ano, e já planeja a temporada de Natal. A estratégia de imersão total, onde o público não apenas assiste, mas se sente parte da história — como no espetáculo ‘Allende la Mar Océana’, onde os visitantes embarcam em réplicas de navios –, cria uma conexão emocional profunda.

A Controvérsia por Trás da Glória

No entanto, o nome “Puy du Fou” carrega consigo um legado complexo, originário da França. O parque francês, fundado em 1977 por Philippe de Villiers, um político com inclinações conspiratórias, tem sido alvo de críticas por parte de historiadores. Um livro intitulado ‘Le Puy du Faux’ (um jogo de palavras com “falso”) acusa o parque de omitir capítulos sombrios da história, como a escravidão e o regime de Vichy, priorizando uma visão idealizada e nacionalista. A instalação na Espanha, em um terreno adquirido a baixo custo, amplificou essas preocupações.

Críticos apontam que a busca pela perfeição cênica pode levar a uma distorção da realidade histórica, onde o espetáculo se sobrepõe à precisão factual. A ênfase em momentos de glória e heroísmo, sem a devida contextualização de eventos traumáticos ou controversos, levanta o debate sobre o papel do entretenimento na educação histórica. Além disso, surgiram alegações de maus-tratos a animais e condições de trabalho precárias, contrastando com a imagem cuidadosamente construída de um parque familiar e educativo.

Implicações e Perguntas em Aberto

A dicotomia entre o sucesso comercial e as controvérsias éticas e históricas coloca o Puy du Fou em uma posição delicada. Enquanto o público celebra a experiência imersiva e a qualidade dos espetáculos, historiadores e ativistas levantam bandeiras vermelhas sobre a narrativa apresentada. A expansão do parque e sua crescente notoriedade internacional intensificam a necessidade de um escrutínio mais rigoroso sobre suas práticas.

O modelo de negócio do Puy du Fou, focado em espetáculos históricos, é inegavelmente atraente e lucrativo. Contudo, a questão que permanece é: até que ponto a busca pela perfeição artística justifica a simplificação ou omissão de fatos históricos? E quais são as responsabilidades de um parque que se autodenomina guardião da história ao apresentar uma versão potencialmente seletiva do passado? A resposta a essas perguntas definirá o legado duradouro do Puy du Fou, para além dos troféus e aplausos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka