A Coreia do Norte usou um palco internacional em Pequim para formalizar sua doutrina nuclear: o programa não apenas continuará, como sua expansão é justificada pela crescente cooperação militar entre Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão. A mensagem foi entregue pelo vice-ministro da Defesa, Kim Kang Il, durante o Fórum de Xiangshan, principal conferência de segurança da China.
Segundo reportagem da Reuters, o discurso representa uma rara aparição de uma autoridade de Pyongyang em um evento do gênero. A tese central é que o status do país como potência nuclear é “irreversível” e constitui uma “linha sem recuo”. A leitura aqui não é de uma nova ameaça, mas da consolidação de uma política de Estado, comunicada para uma audiência global a partir do território de seu principal aliado.
A Doutrina da Escalada
O argumento de Kim Kang Il se baseia numa lógica clássica de segurança internacional: o que Washington, Seul e Tóquio definem como cooperação defensiva é enquadrado por Pyongyang como uma “aliança nuclear” hostil. Essa percepção, segundo o regime, justifica plenamente a construção de um “escudo nuclear sólido” para a República Popular Democrática da Coreia (RPDC), nome oficial do país.
Ao declarar o status nuclear como irreversível, a Coreia do Norte efetivamente encerra o debate sobre a desnuclearização, que chamou de “sonho impossível”. A estratégia parece ser a de normalizar sua condição de potência atômica, deslocando o eixo de qualquer futura negociação. Não se trata mais de discutir o fim do programa, mas de como o mundo irá conviver com ele.
O Eixo Pequim-Pyongyang
A escolha do local para o pronunciamento é tão importante quanto o conteúdo. Ao falar em Pequim, Pyongyang não apenas busca a validação de seu principal parceiro comercial e estratégico, mas também sinaliza um alinhamento mais profundo no tabuleiro geopolítico asiático, em contraponto ao bloco liderado pelos EUA.
A presença de Kim no fórum quebra um período de relativo isolamento diplomático em eventos multilaterais. O movimento sugere uma nova postura, de engajamento seletivo em palcos onde sua narrativa pode ser amplificada por potências amigáveis. A Coreia do Norte está deixando claro que, diante das tensões com o Ocidente, sua aposta é fortalecer os laços com a China.
Com a porta para a desnuclearização formalmente fechada pelo próprio regime, a questão para as potências ocidentais e seus aliados regionais muda de natureza. O desafio não é mais como reverter o programa nuclear norte-coreano, mas como recalibrar a estratégia de contenção para uma realidade em que o arsenal de Pyongyang é um fato permanente na equação da segurança global.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





