Em meados do século XIX, Paris enfrentava surtos devastadores de cólera. A resposta da cidade, entre outras medidas sanitárias, foi a instalação de mictórios públicos, os famosos pissoirs ou vespasiennes. A iniciativa, como aponta uma análise da JSTOR Daily, não era uma questão de conveniência, mas de saúde pública: o dejeto humano passava a ser visto como um perigo, não apenas um incômodo.
A história serve como um espelho invertido para as metrópoles atuais. Aquele senso de urgência sanitária parece ter se dissipado. A progressiva extinção dos banheiros públicos transformou uma necessidade fisiológica básica em um desafio diário para milhões de pessoas, revelando uma falha fundamental no design do espaço cívico.
A higiene como política pública
A decisão parisiense de investir em infraestrutura sanitária representou o reconhecimento de que a dignidade e a saúde da população eram uma responsabilidade coletiva. O espaço público era, de fato, para o público em sua totalidade. Hoje, a lógica parece ser outra. Banheiros acessíveis são frequentemente vistos por gestores públicos e privados como um custo, um foco de vandalismo ou um ponto de encontro para atividades ilícitas.
Essa aversão ao investimento resulta em uma privatização tácita. A função do banheiro público foi transferida para estabelecimentos comerciais — cafés, restaurantes, shoppings — onde o acesso é condicionado ao consumo. Ir ao banheiro, portanto, deixou de ser um direito para se tornar um serviço acessório a uma transação comercial, excluindo quem não pode ou não quer pagar por ele.
O banheiro como fronteira social
As consequências dessa escassez não são distribuídas de forma igualitária. A falta de banheiros afeta desproporcionalmente os mais vulneráveis: a população em situação de rua, entregadores de aplicativo, motoristas, idosos, crianças e qualquer pessoa com condições médicas que exijam acesso frequente a um sanitário. Para esses grupos, a cidade se torna um ambiente hostil, um mapa de barreiras invisíveis.
Essa dinâmica redesenha a geografia social urbana. A liberdade de ir e vir fica condicionada não apenas ao transporte, mas à disponibilidade de uma infraestrutura que atenda a necessidades humanas básicas. A ausência de banheiros públicos é uma declaração silenciosa sobre quem é bem-vindo a ocupar o espaço público e por quanto tempo.
A discussão sobre um simples banheiro, seja na Paris de 1850 ou na São Paulo de hoje, é, em última análise, um debate sobre o tipo de cidade que desejamos construir. A resposta que damos a essa questão define o grau de civilidade, inclusão e dignidade que oferecemos a todos os cidadãos, não apenas àqueles com poder de compra.
Com reportagem de Brazil Valley
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