A tradução literária raramente é vista como matéria-prima para a própria ficção. No entanto, para a escritora argentina Vlady Kociancich, o ato de transpor um texto entre idiomas era uma jornada tão profunda que se tornou o centro de sua obra. Em um ensaio denso publicado no portal literário Lit Hub, a tradutora Jessica Sequeira mergulha no romance The Eighth Wonder (A Oitava Maravilha), de Kociancich, para desvendar uma tese poderosa: a tradução não é um serviço, mas um destino.

Sequeira, responsável pela versão em inglês do livro, argumenta que a chave para entender a ficção de Kociancich está em sua experiência simultânea como tradutora de Joseph Conrad. Enquanto escrevia seu romance, Kociancich trabalhava na versão em espanhol de The End of the Tether, de Conrad, publicada como Con la soga al cuello. Essa sobreposição não foi acidental. Ela se tornou o motor de uma exploração sobre como o tradutor não apenas interpreta um mundo, mas é absorvido e transformado por ele, num processo que borra as fronteiras entre a vida e o texto.

A Dupla Itinerância

No romance de Kociancich, um personagem descreve o trânsito entre as versões em espanhol e inglês de um texto como um “itinerário duplo”. A metáfora é central. A jornada não é unidirecional; o processo de mover as palavras altera tanto a obra original quanto a de destino, e, mais importante, o próprio viajante. Para Kociancich, a tradução de Conrad não foi um exercício de reescrita, mas uma imersão radical. O que ela traduziu não foram apenas palavras, mas atmosferas e cenários. O mundo colonial de Conrad em Singapura viaja e se metamorfoseia na Buenos Aires contemporânea de seu romance.

Essa absorção é o que distingue a tradução como arte da tradução como técnica. O tradutor, segundo essa visão, entra tão profundamente no livro que a própria vida começa a espelhar a jornada textual. Os movimentos dos personagens de Conrad entre portos e navios encontram um paralelo nos deslocamentos do protagonista de Kociancich, um jornalista argentino que transita entre seu bairro em Buenos Aires e a metrópole de Berlim. A transição e o movimento tornam-se a única constante, e a noção de “lar” se dissolve. Há uma inquietude inerente a esse processo, um risco de que o eu se perca em outro mundo à custa do presente.

O Eco de Borges e a Realidade Traduzida

É impossível discutir essa visão da literatura na Argentina sem invocar Jorge Luis Borges, de quem Kociancich foi aluna e amiga. As obsessões borgianas — labirintos, espelhos, a identidade cosmopolita do argentino — ecoam por toda a análise. O ensaio de Sequeira resgata uma citação da própria Kociancich que sintetiza sua filosofia: “Queria incorporar a ideia de que todos vivemos traduzindo a realidade, traduzindo as outras pessoas, embora nunca seja possível conhecer alguém inteiramente”. A tradução literária torna-se, assim, uma metáfora para a própria condição humana.

Essa imersão, contudo, não é isenta de perigos. O texto aponta para o “desassossego” que a tradução exige. Há um medo, explorado no personagem do tradutor de Kociancich, de que a vida traduzida se torne mais rica e interessante que a vida real, a ponto de não se querer — ou não se poder — mais voltar. É uma forma de loucura ou escapismo, onde o mundo do livro suplanta a realidade. O paralelo é traçado com o Capitão Whalley, de Conrad, para quem a vida em terra firme parece irreal perto da existência a bordo de seu navio. A verdadeira vida, para ele, está na jornada, não no destino.

Ao final, a leitura que emerge do ensaio de Sequeira é que a tradução, para escritores como Kociancich, transcende o ofício. Ela é uma forma de conhecimento, um modo de habitar o mundo que aceita a imprecisão e a transformação como parte fundamental da existência. A obra não é um artefato estático a ser decodificado, mas um organismo vivo que dialoga com quem se atreve a transportá-lo. Nessa jornada, o medo de se perder coexiste com a esperança de encontrar uma arquitetura secreta para o mundo, uma coerência que, mesmo sendo uma ficção, nos salva do caos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub