Empresas estão adicionando uma nova etapa, muitas vezes não remunerada, aos seus processos seletivos: o "work trial", ou teste prático. A prática, que pode variar de uma tarefa pontual a uma semana de trabalho integrado à equipe, ganha força como um antídoto para a avalanche de currículos e cartas de apresentação otimizados por inteligência artificial, segundo reportagem da Fortune.

A premissa é simples: se não é mais possível confiar no que o candidato diz que sabe fazer, o melhor é vê-lo em ação. A tese é que o teste prático permite avaliar competências reais e o encaixe cultural, filtrando quem apenas domina a arte da entrevista. O problema é a execução, que flerta com a exploração e cria novas barreiras de entrada.

A desconfiança na era da IA

A proliferação de ferramentas de IA generativa nivelou por cima a qualidade formal das candidaturas, mas esvaziou sua capacidade de sinalização. O resultado é um paradoxo: com mais candidatos aplicando para mais vagas com menos esforço, os recrutadores se veem inundados de material cuja autoria e veracidade são questionáveis. A desconfiança se instalou.

Nesse cenário, o teste prático surge como uma solução lógica para verificar as habilidades "no mundo real". Dados da National Association of Colleges and Employers dos EUA, citados pela reportagem, indicam que cerca de dois terços das empresas já utilizam alguma forma de contratação baseada em habilidades para vagas de nível inicial. É uma tentativa de trocar o discurso pela demonstração.

O custo oculto da oportunidade

O que parece uma busca por meritocracia pode se tornar um imposto sobre o candidato. Exigir dias de dedicação para um teste prático é um obstáculo significativo para profissionais que já estão empregados e não podem se ausentar. A prática acaba por favorecer desproporcionalmente quem tem uma reserva financeira para arcar com o custo de oportunidade de trabalhar de graça na esperança de um contrato.

A linha entre um teste de habilidade e trabalho não remunerado é tênue e perigosa. A regra geral, embora muitas vezes ignorada, é que se o trabalho realizado durante o teste gera valor direto para a empresa, ele deve ser pago. Sem essa baliza, o "work trial" corre o risco de se tornar uma forma de obter consultoria ou entregas gratuitas sob o pretexto de um processo seletivo.

O movimento para humanizar a seleção, afastando-se de uma análise puramente automatizada de currículos, é compreensível. Contudo, sem diretrizes claras e remuneração justa, a solução pode criar um problema ainda mais excludente, onde o preço para conseguir uma entrevista se torna o próprio trabalho.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune