A cidade e o condado de Boulder, no Colorado, entraram com uma ação judicial contra a Suncor e a Exxon Mobil, buscando indenização pelos custos crescentes de adaptação a ondas de calor, incêndios florestais e inundações. O caso chegou à Suprema Corte dos EUA, onde a indústria do petróleo tenta se livrar de um julgamento. A surpresa reside nas alianças que emergiram em apoio a Boulder. Rancheiros locais, que sentem diretamente os impactos econômicos e ambientais das mudanças climáticas, uniram-se a acadêmicos jurídicos conservadores e ex-chefes da Agência de Proteção Ambiental (EPA) sob administrações republicanas. Esses grupos, tradicionalmente distantes de causas ambientais, veem na ação de Boulder uma questão de justiça e responsabilidade corporativa.
Um Grito de Socorro do Campo
Deirdre Macnab, uma rancheira do noroeste do Colorado, expressou seu descontentamento quando o condado de Rio Blanco decidiu apoiar as petroleiras na Suprema Corte. Ela e outros criadores de gado testemunharam em primeira mão os efeitos devastadores das mudanças climáticas: vacas mortas em incêndios florestais, custos exorbitantes para alimentar e dar água aos animais durante secas extremas e a necessidade de vender parte do rebanho ou da terra para evitar a falência. Macnab argumenta que governos locais não podem continuar arcando com os custos crescentes de desastres climáticos enquanto fornecem recursos essenciais para a subsistência dos rancheiros. A ação de Boulder, em sua visão, é uma tentativa de responsabilizar as empresas cujas operações colocam em risco a população, a vida selvagem e o modo de vida rural.
A Lógica Conservadora por Trás da Ação
O apoio a Boulder não se limita a setores tradicionalmente ambientalistas. Juristas conservadores e ex-administradores da EPA, como Christine Todd Whitman e William Reilly, argumentam que a lei federal e a Constituição não impedem que ações climáticas prossigam em tribunais estaduais. Eles defendem o princípio secular do direito consuetudinário, que permite que vítimas de danos busquem reparação. As petroleiras, por outro lado, alegam que leis federais, como o Clean Air Act, as protegem de serem processadas em cortes estaduais e isentam-nas de responsabilidade por danos climáticos. A Suprema Corte agora sopesa se pode intervir antes que o caso seja julgado em instância estadual e se as alegações de Boulder constituem uma tentativa de regulação de emissões via judiciário.
Implicações para a Responsabilização Climática
A decisão da Suprema Corte terá ramificações significativas para a responsabilização de empresas por enganar o público sobre os perigos dos combustíveis fósseis. A indústria do petróleo mobilizou bilhões de dólares para combater dezenas de processos climáticos movidos por governos locais e estaduais. A presença de um conservador Samuel Alito na corte, com potenciais conflitos de interesse, adicionava uma camada de complexidade, embora ele tenha se recusado a participar do caso. A questão central é quem arcará com os custos de adaptação a um planeta em aquecimento: a sociedade ou as empresas que lucraram com a emissão de gases de efeito estufa.
Perguntas em Aberto e o Futuro dos Processos Climáticos
O caso de Boulder levanta questões fundamentais sobre a capacidade de governos locais e regionais de buscar reparação por danos climáticos e a extensão da proteção legal concedida às empresas de combustíveis fósseis. A Suprema Corte está diante de um dilema: validar o princípio de que aqueles que causam danos devem pagar por eles, ou reforçar a imunidade corporativa em face de uma crise climática cada vez mais evidente. A decisão poderá definir um precedente crucial para dezenas de outros casos semelhantes em andamento nos Estados Unidos, moldando o futuro da justiça climática e da responsabilidade corporativa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Grist





