A experiência da Rappler, organização de notícias filipina, com a desinformação e o assédio patrocinados pelo Estado nas redes sociais corporativas serviu como um doloroso chamado à ação. Em vez de continuar a lutar contra as mentiras em plataformas projetadas para maximizar o engajamento e o lucro, a Rappler optou por uma estratégia radical: construir seu próprio "digital commons" – um espaço digital público ancorado em fatos, tecnologia e comunidade. Esta decisão, detalhada em um excerto do livro "The Fight Back: A Citizen’s Guide to Standing Up to Dictators", de Maria Ressa, reflete uma mudança fundamental na forma como as organizações de notícias e a sociedade civil podem responder à captura autoritária do ecossistema informacional.

Por mais de uma década, as Filipinas têm sido um laboratório para a forma como a tecnologia pode ser usada por regimes autoritários para corroer as instituições democráticas. O trabalho de Rodrigo Duterte, presidente filipino entre 2016 e 2022, foi facilitado pela ascensão das grandes plataformas de mídia social, especialmente o Facebook. O Estado filipino utilizou o Facebook para amplificar ataques digitais e transformá-los em "lawfare", uma tática que culminou em acusações criminais contra Ressa, cofundadora e CEO da Rappler, com o objetivo de levá-la à prisão perpétua. Diante dessa realidade, a Rappler percebeu que a luta pela integridade da informação não poderia ser travada apenas nos tribunais ou com apelos às plataformas. A infraestrutura digital que molda o discurso público global foi construída por oligarcas da tecnologia com o objetivo de maximizar o engajamento e o lucro, concentrando poder e, em muitos casos, servindo a interesses autoritários. A organização filipina, após anos de "whack-a-mole" contra a desinformação, concluiu que a única solução era construir sua própria tecnologia: uma comunidade virtual onde os fatos fossem a base das interações.

A Infraestrutura como Lei

A decisão de construir uma alternativa tecnológica não foi tomada de ânimo leve. Ressa expressou a esperança de que outras empresas mais bem equipadas criassem tais espaços, mas a inércia levou a Rappler a assumir essa tarefa. A estrutura da organização foi edificada sobre três pilares: tecnologia, jornalismo e comunidade. A falha em qualquer um desses pilares compromete a integridade do todo. Jornalismo independente não pode prosperar sobre infraestruturas capturadas, e comunidades não podem existir em espaços projetados para manipulação. A tecnologia, neste contexto, é onde o corpo da democracia encontra seu sistema nervoso. Quando as plataformas digitais são capturadas, a distribuição do jornalismo é refém, a comunidade se dissolve e as instituições perdem sua legitimidade. A Rappler, ao invés de continuar pedindo às plataformas como o Facebook para moderar melhor o conteúdo, decidiu parar de usá-las como sua praça pública. A metáfora é clara: o incendiário não salvará a vila; é preciso construir uma nova, com barreiras e firewalls adequados. A abordagem da Rappler envolveu começar pequeno, proteger os fatos e separar-se da manipulação algorítmica e digital.

O "Autoritarian Stack" e a Resposta Democrática

A ascensão da inteligência artificial generativa (IA) aprofundou as preocupações sobre a captura da infraestrutura digital. Nos Estados Unidos, por exemplo, a formação de um "authoritarian stack" é visível, com líderes de grandes empresas de tecnologia aconselhando formalmente o presidente sobre políticas de IA. Nomes como Mark Zuckerberg (Meta), Larry Ellison (Oracle) e Jensen Huang (Nvidia) integram conselhos que moldam o que bilhões de pessoas veem, sentem e acreditam. O documento de política nacional de IA da Casa Branca, em março de 2026, identificou o risco central da nova tecnologia como sua possível coerção sobre plataformas de mídia social, que por sua vez coagem cidadãos através de algoritmos e vigilância. A fusão entre poder estatal e poder tecnológico não é acidental, mas sim o resultado da ausência de uma infraestrutura democrática em escala. A Rappler, desde sua fundação em 2011, entendeu que a batalha pela verdade seria travada no terreno digital. Inicialmente, a organização buscou otimizar seu conteúdo para mecanismos de busca, gerando até 69% de seu tráfego de fontes consideradas mais confiáveis. Contudo, com o lançamento do "zero-click search" pelo Google em 2024 e a consequente queda na distribuição para publicações, essa estratégia se tornou insustentável. A Rappler então mudou o foco: em vez de tentar reformar as plataformas, começou a construir ao lado delas.

Construindo um "Commons" Factual e Federado

A Rappler desenvolveu um arquivo abrangente de todo o seu conteúdo, catalogado por tópicos, locais e eventos. Em 2024, lançou sua própria chatbot baseada em fatos, a RAI (Rappler Artificial Intelligence), que apresentava uma taxa de erro significativamente menor (1,6%) em comparação com chatbots comerciais (cerca de 16%), devido ao controle sobre seus próprios dados e à combinação com bancos de dados públicos verificados. Essa iniciativa abriu um caminho para o jornalismo, aproveitando o histórico de reportagens de parceiros globais como um registro de fatos verificados. Paralelamente, a organização criou sua própria praça pública digital através de um aplicativo de chat baseado no protocolo Matrix. O Matrix, sendo open-source e não pertencente a uma única empresa, permite que os usuários criem seus próprios servidores de comunicação, sem algoritmos que decidam o que os usuários veem e com criptografia de ponta a ponta. Os jornalistas da Rappler definem as regras da comunidade, utilizando IA como ferramenta de apoio, mas com a palavra final sempre humana. O resultado é uma conversa ancorada em fatos, não em indignação gerada por engajamento. Em setembro de 2025, essa experiência se expandiu para a "Rappler Communities", uma rede de redações confiáveis, incluindo o Philippine Press Institute e o SunStar Cebu. Essa infraestrutura compartilhada e de propriedade própria permite que leitores naveguem entre diferentes publicações sem ceder dados ou serem manipulados por algoritmos. O leitor se torna cidadão em um espaço cívico compartilhado, não um produto.

O Futuro da Infraestrutura Democrática

O "authoritarian stack" é uma realidade persistente, mas organizações de notícias independentes podem colaborar para construir um verdadeiro "digital commons" ao seu lado. A chave para isso é a federação – o oposto estrutural do monopólio. Cada membro de uma rede federada se autogoverna, mas, ao usar padrões abertos, todos se comunicam, permitindo que os usuários transitem entre eles sem perder dados ou conexões. Este modelo, semelhante ao funcionamento do e-mail e da internet primitiva, está ressurgindo em plataformas de mídia social descentralizadas. O Bluesky, por exemplo, evoluiu de um experimento técnico para uma praça pública paralela com quase 44 milhões de usuários em abril de 2026. Um ecossistema crescente de organizações de tecnologia de interesse público trabalha para criar alternativas às tecnologias de propriedade monopolista, defendendo liberdades civis, preservando o registro público e protegendo jornalistas e dissidentes. Projetos como o ROOST (Robust Open Online Safety Tools), liderado por Camille Francois, fornecem software de código aberto para detectar e remover conteúdo prejudicial, além de ferramentas para lidar com assédio online. A colaboração entre concorrentes e a adoção de padrões abertos por empresas como Discord, Google e OpenAI demonstram o reconhecimento de que a segurança online é um problema maior do que qualquer empresa isolada. A urgência se estende à IA: se o aluguel de uma plataforma de chat significa terceirizar a praça pública, terceirizar um agente de IA significa terceirizar o próprio julgamento. A questão não é se os agentes de IA serão poderosos, mas a quem eles serão leais. A construção de uma infraestrutura alternativa, impulsionada por projetos de interesse público e frameworks de código aberto, é essencial para garantir que a IA sirva aos cidadãos, e não a regimes autoritários ou interesses corporativos. A janela para agir é estreita, mas ainda está aberta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas