Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, afirma que a ordem mundial atravessa uma transformação profunda. Após uma viagem de dez dias a Pequim, o investidor descreveu um cenário onde a influência dos Estados Unidos declina frente a uma China que consolida um novo arranjo diplomático. Segundo Dalio, a percepção global é de que Washington carece da disposição necessária para sustentar os custos de manter seu império, um sentimento que teria se cristalizado após a gestão americana em episódios recentes de tensão no Oriente Médio.
O diagnóstico de Dalio, detalhado em um ensaio publicado recentemente, traça um paralelo histórico com o declínio do Império Britânico. Para o gestor, o momento atual assemelha-se ao período que precedeu o fim da hegemonia britânica, sugerindo que a liderança americana enfrenta um teste de vontade que seus rivais já identificaram. A tese central é que o mundo transita de uma ordem baseada em regras multilaterais para uma estrutura bipolar e hierárquica, onde o poder direto dita as relações internacionais.
A lógica do sistema de tributo
O conceito central na análise de Dalio é o retorno do antigo sistema de tributo chinês, adaptado ao século XXI. Historicamente, esse modelo não dependia de ocupação militar, mas de uma hierarquia onde nações menores reconheciam a primazia chinesa em troca de estabilidade e acesso econômico. Diferente do modelo imperial ocidental, a China de Xi Jinping estaria operando sob uma lógica onde o reconhecimento de superioridade é o preço da cooperação.
Dalio argumenta que essa configuração é uma resposta direta ao que os chineses chamam de '100 anos de humilhação'. A reunificação com Taiwan, sob essa ótica, não seria apenas um objetivo territorial, mas a cura de uma ferida histórica. O movimento estratégico de Pequim, portanto, prioriza a influência diplomática e econômica sobre o confronto militar direto, buscando consolidar uma esfera de influência que force o reconhecimento de sua autoridade pelas potências vizinhas.
Estratégia de influência indireta
Ao aplicar os ensinamentos de 'A Arte da Guerra', de Sun Tzu, Dalio observa que a estratégia chinesa foca em subjugar o oponente sem a necessidade de combate. O uso de pressão indireta, seja através de cadeias de suprimentos ou alavancagem financeira, tornou-se a ferramenta preferencial de Pequim. A comparação feita pelo investidor entre o xadrez e o jogo Go ilustra bem essa dinâmica: enquanto o xadrez busca a aniquilação, o Go foca em limitar a área de influência do adversário.
O setor de tecnologia, em especial o de semicondutores, é o ponto onde essa alavancagem se torna mais evidente. Como Taiwan detém a maior parte da produção mundial de chips avançados, a simples ameaça de bloqueio por parte da China gera instabilidade global. Dalio aponta que a China busca a autossuficiência tecnológica até 2027, o que poderá tornar a dependência ocidental um risco estratégico ainda maior do que o observado hoje.
Implicações para o capital global
Para os investidores, a visão de Dalio é estruturalmente pessimista quanto ao domínio do dólar. Com o crescimento do papel do renminbi no comércio global e a relutância de empresas chinesas em acumular ativos americanos passíveis de sanções, o sistema financeiro global caminha para uma fragmentação. A alavancagem que a China construiu em minerais críticos e materiais de defesa coloca o país em uma posição de vantagem estratégica que o Ocidente, segundo o autor, ainda luta para compreender.
O impacto dessa mudança é sentido na alocação de ativos e na percepção de risco. Se a ordem baseada em regras está sendo substituída por uma baseada em poder, a volatilidade dos mercados financeiros deve refletir essa transição. A capacidade de Pequim em utilizar sua influência sem recorrer à força militar é, na visão de Dalio, a marca de uma potência que aprendeu a exercer autoridade com eficácia máxima.
O futuro da ordem bipolar
O que permanece incerto é como as democracias ocidentais responderão a esse desafio de longo prazo. A possibilidade de uma solução para Taiwan que evite o conflito direto, talvez por meio de arranjos diplomáticos, é um cenário que Dalio não descarta. No entanto, a trajetória aponta para uma competição contínua onde a China continuará a testar os limites da influência americana.
Observar a evolução da autossuficiência chinesa em tecnologia e as respostas de Washington a esses avanços será essencial para entender o próximo capítulo da geopolítica. Se o sistema de tributo se consolidar, a dinâmica do comércio e da segurança global será irremediavelmente alterada, forçando todos os atores a se realinharem em um mundo onde a hegemonia única já não é a norma. A questão que fica é se o sistema internacional conseguirá acomodar essa nova hierarquia sem colapsar em desordem.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





