O cenário empresarial brasileiro registra um número recorde de companhias sob recuperação judicial (RJ). No primeiro semestre de 2026, 6.341 empresas estavam ativas nesse regime, um aumento de 66% em apenas três anos. No entanto, a trajetória pós-RJ é sombria: apenas 23% das empresas que concluem o processo conseguem retomar suas operações de forma independente. As restantes 77% acabam tendo a falência decretada pela Justiça. Essa proporção tem se mantido estável nas últimas duas décadas, segundo a consultoria RGF-BizDoc, que comparou dados de dois levantamentos independentes. "São duas séries construídas por caminhos independentes e elas convergem para o mesmo ponto", afirma Cláudio Damasceno, sócio sênior da RGF-BizDoc.

O longo caminho da recuperação

A recuperação judicial, embora seja um instrumento valioso para a reestruturação de empresas em dificuldades, é um processo intrinsecamente longo e complexo. A tramitação média para a conclusão de uma RJ ultrapassa quatro anos e meio. Durante esse período, as empresas precisam negociar com credores, reorganizar passivos, adaptar a administração e, em muitos casos, realizar mudanças estruturais significativas. A falta de recursos para sustentar essa longa jornada é um dos principais fatores que contribuem para a alta taxa de insucesso. Micro e pequenas empresas, que hoje representam a maioria dos pedidos de RJ, frequentemente chegam ao processo com menos estrutura financeira e de gestão, o que dificulta a contratação de advogados especializados, consultorias e administradores judiciais necessários para navegar com sucesso pela complexidade do sistema.

Mudança no perfil e juros elevados

O perfil das empresas que buscam a recuperação judicial mudou drasticamente. Antes restrita a médias e grandes companhias, a RJ agora é dominada por micro e pequenos negócios. Essa migração para a base da pirâmide empresarial agrava os desafios, pois essas empresas menores possuem menor capacidade de absorção de custos e de resiliência a longo prazo. Paralelamente, o cenário macroeconômico tem imposto pressões adicionais. Juros elevados e persistentes, com a taxa Selic em patamares altos, tornam o custo do dinheiro mais caro e a renegociação de dívidas mais onerosa. Planos de recuperação aprovados em juízo, construídos sobre projeções de receita e custo do dinheiro de anos anteriores, muitas vezes se tornam inviáveis diante de um cenário de juros que se prolonga por mais tempo do que o previsto. A inadimplência das pessoas jurídicas tem refletido essa pressão, subindo para 4,2% em julho, com a taxa média de juros do crédito para empresas em 25,4% ao ano.

Implicações e o papel da preparação

A alta taxa de insucesso na recuperação judicial levanta questões sobre a eficácia do arcabouço legal e a capacidade do sistema de proteger credores e o tecido produtivo. Setores como varejo, indústria e agronegócio concentram a maioria dos casos, com o agro apresentando um crescimento expressivo nos pedidos. A saúde, embora com um recuo pontual, também enfrenta desafios, com empresas buscando reestruturações. A preparação prévia é um diferencial crucial. Empresas que negociam com credores antes de protocolar o pedido, com um plano desenhado e caixa mapeado, tendem a ter mais sucesso. A recuperação extrajudicial, que permite acordos diretos com credores e homologação em juízo, surge como uma alternativa para quem age cedo, evitando o desgaste e os custos de um processo judicial completo. Casos como Raízen, GPA e Oncoclínicas buscaram esse mecanismo para reorganizar bilhões em dívidas.

Perguntas em aberto e 'mortes silenciosas'

O fenômeno das 'mortes silenciosas' adiciona uma camada de complexidade às estatísticas. Empresas que cumprem o plano de RJ, mas quebram posteriormente fora do radar oficial, ou aquelas que simplesmente param de operar sem ter a falência decretada, não entram nas contas tradicionais. A consultoria RGF-BizDoc identificou centenas de CNPJs nessa condição — empresas que 'não faliram no papel e não existem na prática'. Esse cenário paradoxal sugere que o sistema legal e o mercado financeiro ainda precisam desenvolver mecanismos mais eficazes para lidar com companhias em crise. O caso da Oi, que protagonizou uma das maiores recuperações judiciais do país e hoje enfrenta um segundo processo com dívidas de R$ 35,3 bilhões, exemplifica as falhas do arcabouço em garantir a reestruturação sustentável e proteger o tecido produtivo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea