Uma onda de fervor regulatório varre o globo, com um alvo claro: adolescentes e redes sociais. Da Austrália ao Reino Unido, passando pela França — onde o presidente Emmanuel Macron declarou que “os cérebros de nossas crianças não estão à venda” —, legisladores avançam com proibições para menores de 15 ou 16 anos. O movimento ganhou um impulso singular com o livro “A Geração Ansiosa”, do psicólogo social Jonathan Haidt, que se tornou a principal referência para a tese de que as plataformas digitais são a causa direta de uma crise de saúde mental entre os jovens.
Contudo, como aponta uma análise da publicação americana Persuasion, a popularidade bipartidária e quase universal dessas proibições pode mascarar uma perigosa simplificação. Reduzir um fenômeno complexo a uma única causa — a tela — é politicamente conveniente, mas ignora as questões mais espinhosas sobre o ambiente que os adultos criaram para as novas gerações. A leitura aqui é que, ao focar exclusivamente em banir a tecnologia, a sociedade talvez esteja se absolvendo de sua própria responsabilidade.
O debate além da tela
No centro da discussão estão duas visões que, à primeira vista, parecem antagônicas. De um lado, Jonathan Haidt, cujo argumento é que a chegada dos smartphones e das redes sociais por volta de 2010 coincide com um aumento dramático nos índices de ansiedade e depressão juvenis. Para ele, a causalidade é clara e a solução, direta: adiar o acesso a essas plataformas.
Do outro lado está Candice Odgers, psicóloga do desenvolvimento da Universidade da Califórnia em Irvine. Odgers argumenta que as correlações são fracas e inconsistentes, sugerindo que a causalidade pode ser inversa: jovens que já enfrentam dificuldades (estresse familiar, violência, problemas de saúde mental) são os que mais recorrem às telas, da mesma forma que os adultos. O ponto de convergência, no entanto, é a parte mais reveladora. O próprio Haidt martela um mantra: “superprotegemos nossas crianças no mundo real e as subprotegemos no mundo online”. Ele argumenta que o colapso da infância baseada em brincadeiras livres e autonomia precedeu a era do smartphone. O telefone não criou o vácuo; ele o preencheu.
A conveniência de culpar a tecnologia
Essa ideia de um vácuo é fundamental. Uma reportagem do Daily Mail, citada no artigo original, ilustrou o encolhimento do raio de autonomia de uma criança ao longo de quatro gerações na mesma família: de quase 10 quilômetros em 1919 para meros 300 metros em 2007. Para um adolescente cujo mundo físico termina na esquina, o espaço virtual pode ser o único território livre da supervisão adulta. Como questiona Odgers, “já expulsamos os adolescentes dos espaços públicos, e agora vamos tirar os espaços onde eles se reúnem virtualmente porque os adultos estragaram isso também?”.
A história está repleta de soluções fáceis para problemas difíceis. A Coreia do Sul, por exemplo, implementou em 2011 a “Lei Cinderela”, que bloqueava o acesso de menores de 16 anos a jogos online da meia-noite às seis da manhã. O objetivo era combater a privação de sono. O resultado foi pífio — um ganho médio de 90 segundos de sono por noite — e a lei foi revogada. O diagnóstico superficial (o problema são os jogos) evitou a discussão sobre o verdadeiro problema: um sistema educacional brutalmente competitivo que leva os jovens à exaustão. O paralelo é direto: é mais fácil culpar o Instagram do que financiar conselheiros de saúde mental nas escolas, redesenhar cidades para incluir os jovens ou questionar modelos de paternidade que sufocam a autonomia.
Focar o debate em uma proibição etária, portanto, corre o risco de ser uma concessão conveniente para todos. As empresas de tecnologia escapam de uma discussão mais profunda sobre seus algoritmos predatórios, e o resto da sociedade se isenta de confrontar as falhas estruturais que tornaram as telas tão centrais em primeiro lugar. A questão que fica não é apenas se a proibição funciona, mas que conversas difíceis estamos evitando ao eleger a tecnologia como a única culpada.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





