A Refinaria Riograndense, um ativo estratégico compartilhado por Petrobras, Braskem e o grupo Ultra, está prestes a definir o futuro de sua operação no Rio Grande do Sul. Em junho, a empresa deve bater o martelo sobre um investimento de US$ 1 bilhão voltado à construção de uma unidade dedicada à produção de biocombustíveis avançados, especificamente o combustível sustentável de aviação (SAF) e o diesel renovável (HVO).

Segundo informações divulgadas durante um evento em São Paulo pelo diretor de Biorrefino da companhia, Flávio de Souza, a expectativa é que a construção tenha início logo após o sinal verde da diretoria. O projeto, apontado pela empresa como um dos mais avançados do país no setor, prevê o processamento de 800 mil toneladas anuais de óleos vegetais, resíduos e gorduras animais.

A estratégia por trás da biorrefinaria

A escolha da Riograndense em apostar no refino de biomassa não ocorre no vácuo. O setor de aviação global, pressionado por metas de redução de emissões de carbono, busca alternativas ao querosene fóssil. A unidade projetada tem capacidade para produzir 620 mil toneladas de SAF ou 680 mil toneladas de HVO, conforme a demanda e as condições de mercado — uma flexibilidade operacional relevante em um setor de margens voláteis.

Historicamente, a refinaria operava sob o modelo tradicional de refino de petróleo. A transição para uma biorrefinaria representa uma mudança estrutural na tese de negócio, alinhando a empresa com diretrizes de sustentabilidade valorizadas por acionistas e mercados financeiros. Ao focar em produtos de maior valor agregado e menor pegada de carbono, a Riograndense busca se proteger contra a obsolescência que pode afetar refinarias convencionais nas próximas décadas.

Dinâmicas de mercado e exportação

O modelo de negócio desenhado privilegia o mercado exportador, mantendo espaço para atendimento do consumo interno brasileiro. Essa dualidade é fundamental para a viabilidade financeira do projeto. No exterior, o preço do SAF é impulsionado por mandatos de uso na Europa e por incentivos e programas estaduais nos Estados Unidos, o que oferece um prêmio que torna a produção local de biocombustíveis mais atrativa.

A integração entre Petrobras, Braskem e Ultra tende a criar sinergias logísticas e técnicas. A Petrobras aporta uma ampla infraestrutura logística e experiência em refino e trading, enquanto a Braskem agrega expertise em processos químicos — combinação que pode mitigar riscos inerentes à implementação de tecnologia de biorrefino em escala industrial em um país com oferta potencial de matérias-primas.

Tensões e desafios regulatórios

O sucesso da unidade dependerá não apenas da engenharia, mas do ambiente regulatório brasileiro. A estabilidade de políticas de incentivo aos biocombustíveis e a clareza sobre eventuais mandatos de mistura seguem em discussão entre produtores e reguladores. Para os stakeholders, segurança jurídica é um insumo crítico antes de liberar um aporte de US$ 1 bilhão, especialmente em um cenário em que a infraestrutura de distribuição requer adaptações constantes.

Competidores globais já estão em estágios avançados de produção de SAF, e a velocidade da Riograndense será testada pela capacidade de execução. A transição energética exige que a infraestrutura acompanhe a ambição, e eventuais atrasos na obra ou gargalos na cadeia de suprimentos de óleos e gorduras podem comprometer a competitividade do produto brasileiro no mercado global.

O horizonte da transição energética

A decisão de junho é apenas a primeira etapa de um ciclo de longo prazo. O setor de aviação ainda enfrenta desafios de custo e escala, e a viabilidade econômica do SAF no horizonte estendido permanece em avaliação por analistas. O que se observa, contudo, é um movimento de diversificação de portfólio por parte de grandes empresas de energia brasileiras.

Resta saber como o mercado reagirá à oferta em maior escala de biocombustíveis avançados ao longo do fim desta década e início da próxima e se a demanda global continuará crescendo no ritmo necessário para absorver os volumes projetados. A Riograndense, ao se posicionar nessa frente, assume um risco calculado que pode definir sua relevância no cenário energético da próxima década.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney