A Comissão Nacional de Mercados e Concorrência da Espanha (CNMC) publicou um estudo que acende um alerta sobre o mercado de serviços em nuvem, um setor que já movimenta cerca de €1,9 bilhão anuais no país. O diagnóstico é de alta concentração, com Amazon Web Services e Microsoft dominando a paisagem de forma avassaladora.

Segundo a reportagem da Forbes Espanha, o relatório aponta que, em alguns segmentos, os dois gigantes detêm juntos entre 60% e 70% do mercado, com o Google em um distante terceiro lugar. A iniciativa espanhola não é um caso isolado, mas um sintoma da crescente preocupação regulatória com a infraestrutura que se tornou a espinha dorsal da economia digital, um movimento com potencial para influenciar debates em todo o mundo.

As barreiras invisíveis do ‘lock-in

O estudo da CNMC vai além dos números de market share e disseca os mecanismos que solidificam o domínio dos chamados "hiperescaladores". A agência identifica barreiras à interoperabilidade e à portabilidade como fatores que geram uma forte dependência do usuário, o conhecido efeito ‘lock-in’. Na prática, uma vez que uma empresa constrói sua operação sobre uma plataforma, os custos e a complexidade para migrar para um concorrente se tornam proibitivos.

Os dados do relatório são eloquentes: apenas 2% dos clientes corporativos na Espanha teriam trocado de provedor principal, e somente 5% utilizam estratégias ‘multicloud’ de forma simultânea. Práticas como taxas de egressão de dados (‘egress fees’) e modelos de descontos agressivos são apontadas como ferramentas que, na prática, desincentivam a competição e a migração entre plataformas, consolidando ainda mais os líderes.

A receita de Madri

Para enfrentar o cenário, a CNMC não se limita ao diagnóstico e propõe um receituário em três frentes. A primeira é a supervisão reforçada, sugerindo que os serviços de nuvem possam ser enquadrados no escopo do Regulamento de Mercados Digitais (DMA) da União Europeia, uma das legislações mais duras do bloco contra as práticas anticompetitivas das Big Techs.

A segunda frente é o fomento a um ambiente pro-competitivo, minimizando o peso da regulação sobre operadores menores e promovendo padrões de portabilidade de dados. Por fim, e talvez o ponto mais pragmático, a agência recomenda uma reforma na contratação pública de serviços de nuvem. O objetivo é que o Estado não se torne um agente que perpetua a dependência tecnológica, mas sim um que incentiva a diversidade de fornecedores.

A ação do regulador espanhol é um microcosmo de um debate global. A infraestrutura de nuvem tornou-se tão fundamental quanto eletricidade ou telecomunicações no século passado. A questão que fica para mercados como o Brasil, onde a mesma dinâmica de concentração se repete, não é se a discussão regulatória chegará, mas como e quando ela será adaptada à realidade local.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España