O governo do Reino Unido oficializou, durante a Semana do Clima de Londres, uma nova diretriz voltada a restringir a entrada de commodities agrícolas produzidas em áreas de desmatamento ilegal. A medida impõe requisitos obrigatórios de due diligence para empresas britânicas que comercializam itens como gado, soja, cacau, café, óleo de palma, borracha e madeira. O objetivo central é assegurar que as cadeias de suprimentos globais do país não contribuam para a supressão de florestas fora de conformidade com as leis locais de origem.
A proposta, que deve entrar em vigor no próximo ano, busca alinhar o mercado britânico a padrões globais de sustentabilidade, embora apresente uma abordagem distinta da União Europeia. Diferente da lei antidesmatamento europeia (EUDR), que veda a comercialização de produtos oriundos de qualquer desmatamento, a legislação britânica foca estritamente no desmatamento ilegal. A leitura aqui é que o governo britânico tenta equilibrar a pressão por metas climáticas com a manutenção da fluidez comercial.
O impacto nas relações comerciais com o Brasil
O Brasil, como um dos maiores exportadores mundiais de soja e carne bovina, figura como um dos principais afetados pela nova regulação. Dados recentes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que as exportações brasileiras para o Reino Unido atingiram US$ 1,7 bilhão em levantamentos recentes, um crescimento expressivo de 19,1% em relação ao período anterior. A soja, com US$ 165,5 milhões em vendas, e a carne bovina, com US$ 39,5 milhões, demonstram a relevância dessa parceria.
A exigência de rastreabilidade completa coloca um desafio operacional para produtores brasileiros que operam em regiões como a Amazônia e o Cerrado, onde a complexidade logística e a regularidade fundiária são pontos críticos. A necessidade de provar a origem legal de cada lote exportado forçará uma modernização acelerada dos sistemas de monitoramento e controle por parte das empresas brasileiras que desejam manter o acesso ao mercado britânico.
Mecanismos de controle e due diligence
O mecanismo central da nova lei é a obrigatoriedade de due diligence. Empresas britânicas deverão implementar sistemas robustos para verificar se seus fornecedores diretos e indiretos operam dentro da legalidade. Isso implica que a responsabilidade pela conformidade é transferida para o importador, que, por sua vez, pressionará os produtores na ponta da cadeia por transparência total e dados georreferenciados.
A dinâmica em jogo é de um rigor crescente nas cadeias de valor. Ao exigir provas de legalidade, o Reino Unido segue uma tendência global de internalizar externalidades ambientais. Para o produtor brasileiro, isso significa que a conformidade ambiental deixa de ser um diferencial competitivo para se tornar uma licença básica de operação internacional, sob pena de exclusão de mercados de alto valor agregado.
Implicações para o ecossistema global
A regulação britânica reflete a crescente pressão de consumidores e reguladores por cadeias de suprimentos livres de desmatamento. Com aproximadamente 90% do desmatamento global sendo impulsionado pela expansão agrícola, o Reino Unido busca mitigar o impacto do consumo interno, que, em 2023, foi associado a cerca de 29 mil hectares de desmatamento no mundo. A medida coloca em xeque a estratégia de empresas que ainda não possuem visibilidade total sobre suas bases de fornecimento.
Para reguladores, o desafio será a harmonização dessas normas. A existência de diferentes leis entre blocos (como a EUDR europeia e a nova lei britânica) cria um mosaico regulatório que exige das empresas globais um esforço redobrado de adaptação. A longo prazo, a expectativa é que esses padrões de due diligence se tornem a norma global, elevando o custo de entrada para produtos originários de áreas com governança ambiental frágil.
Perspectivas e incertezas futuras
O que permanece incerto é a eficácia da fiscalização e o impacto real nos preços ao consumidor final. A implementação da lei exigirá uma coordenação estreita entre o governo britânico e os países parceiros para evitar barreiras comerciais indesejadas e garantir que os pequenos produtores não sejam excluídos do mercado internacional por falta de recursos técnicos para a comprovação da legalidade.
Observar como as empresas brasileiras se adaptarão a esses novos requisitos nos próximos meses será fundamental para entender a resiliência das exportações nacionais. A transição para uma produção totalmente rastreável é um caminho sem volta, mas o ritmo dessa adaptação ditará quem conseguirá manter sua fatia de mercado em um ambiente global cada vez mais exigente em termos de sustentabilidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset





