Uma pesquisa publicada no British Journal of Psychiatry sugere que até um quarto dos casos de depressão podem ter sua origem em descompassos do relógio biológico interno das pessoas, um quadro denominado "depressão circadiana". Este tipo de depressão, segundo os pesquisadores, responde de forma insatisfatória aos tratamentos antidepressivos convencionais, mas pode apresentar melhora significativa com terapias baseadas em melatonina ou com a adoção de estratégias comportamentais, como a exposição à luz solar nas primeiras horas da manhã.
Ian Hickie, da Universidade de Sydney, um dos autores do estudo, destaca a importância da coordenação dos relógios biológicos para o bem-estar geral. "A coordenação [dos seus relógios biológicos] sustenta seu humor, seu metabolismo, sua concentração, seu ciclo de sono-vigília e muitos outros fatores-chave", afirma. "Quando está bem, você se sente muito bem, levanta de manhã com energia. Quando está desregulado, você se sente jet-lagged o tempo todo, cansado, exausto, ganha peso, não consegue se concentrar, dorme mal e seu comportamento muda."
Entendendo a Depressão Circadiana
O estudo envolveu mais de 10.000 australianos com depressão grave e recorrente, que responderam a questionários sobre seus padrões de sono e outras características, como a sazonalidade dos sintomas. Amostras de saliva foram coletadas para análise de DNA. Desses participantes, 23% foram identificados com depressão circadiana. Os critérios incluíam pelo menos três dos seis sinais de desregulação do relógio biológico: ser do tipo "noturno" (estar mais ativo à noite), adormecer mais tarde que a maioria, sentir-se muito cansado ao acordar independentemente da duração do sono, dormir mais durante episódios depressivos, dormir até tarde nos dias sem trabalho, e apresentar fortes alterações sazonais de humor, energia, sono e apetite.
Emiliano Tonini, também da Universidade de Sydney e membro da equipe, ressalta que a questão não é apenas a quantidade de sono, mas "o ritmo e a regularidade do sono". Indivíduos com depressão circadiana apresentaram sintomas mais severos, incluindo maior propensão a pensamentos suicidas, e um início mais precoce da condição, com a média de idade de início sendo 18 anos no grupo circadiano, contra 23 anos no grupo não circadiano.
Mecanismos e Fatores Contribuintes
A pesquisa sugere que fatores genéticos podem estar na raiz da desregulação do relógio biológico e das consequentes perturbações de humor. Participantes com depressão circadiana tinham maior probabilidade de apresentar variantes genéticas associadas a problemas de sono, maior peso corporal, marcadores inflamatórios e TDAH. "Existe uma biologia subjacente que é bastante distinta de outras formas de depressão", explica Tonini. O estilo de vida moderno também é apontado como um contribuinte significativo. Nossos relógios biológicos necessitam de luz solar pela manhã para manter ritmos circadianos estáveis, e podem ser desestabilizados pela exposição à luz artificial em momentos em que historicamente estaríamos no escuro. "Vivemos no século XXI, que diz, sabe, 'Fique dentro de casa, passe o dia no computador, evite a luz e depois fique acordado à noite e se exponha à luz'", critica Hickie, descrevendo isso como "um completo oposto do que fomos feitos para fazer".
Implicações e Novas Terapias
Os participantes com depressão circadiana relataram menor eficácia e mais efeitos colaterais com antidepressivos comuns, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs). Isso pode ocorrer porque os ISRSs atuam no neurotransmissor serotonina, enquanto a depressão circadiana pode ter mecanismos biológicos distintos. Os pesquisadores estão prestes a iniciar um ensaio clínico para investigar a eficácia da melatonina sintética, hormônio que regula o ciclo sono-vigília, no tratamento da depressão circadiana. Um estudo anterior já demonstrou que a agomelatina, um antidepressivo que mimetiza os efeitos da melatonina, melhorou o sono e reduziu a depressão geral.
O ensaio também avaliará estratégias comportamentais para a regulação do relógio biológico, como acordar no mesmo horário ao amanhecer, sair ao ar livre, passar tempo ao ar livre ao meio-dia, e ter horários regulares para refeições e exercícios durante o dia. Hickie recomenda evitar grandes refeições, exercícios intensos ou exposição à luz forte após o anoitecer, pois "são todos os sinais errados". Além de auxiliar na depressão, a reconfiguração dos relógios biológicos pode reduzir a inflamação e promover um peso saudável. A identificação precoce da depressão circadiana pode levar a tratamentos mais eficazes, poupando pacientes de medicações inadequadas.
Perguntas em Aberto e Perspectivas
Embora os achados sejam "realmente úteis por avançarem o campo na compreensão de todo o aspecto do ritmo circadiano na depressão e como ele pode estar relacionado a medidas biológicas como genética e marcadores inflamatórios", segundo Colleen Loo, da Universidade de New South Wales, mais pesquisa é necessária antes que a depressão circadiana seja formalmente reconhecida como um subtipo distinto. Loo pondera que "como psiquiatra clínica, não acho que seja hora de dizer, 'Certo, com base nisso, vamos dizer que, se você tem esses sintomas, devemos tratá-lo com este medicamento em vez daquele medicamento'". No entanto, ela sugere que pessoas com depressão podem considerar o uso de melatonina e estratégias comportamentais, além de seus tratamentos atuais, se sentirem que seus relógios biológicos não estão funcionando otimamente. A melatonina é segura e medidas como a redução da iluminação antes de dormir são sensatas, sendo um tema que "todos os clínicos deveriam discutir com os pacientes que têm distúrbios do sono".
A identificação e o tratamento adequados da depressão circadiana representam um passo promissor para uma abordagem mais personalizada e eficaz da saúde mental, abrindo caminho para intervenções que vão além dos tratamentos farmacológicos tradicionais e abordam as causas subjacentes do desequilíbrio biológico.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · New Scientist





