O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, defendeu perante o Comitê de Finanças do Senado que o país atravessa um "renascimento da manufatura". A tese é sustentada por um volume expressivo de novos projetos de construção não residencial, expansões de plantas industriais de empresas como a Boeing e aportes em setores estratégicos como semicondutores e energia limpa. Segundo reportagem da Fortune, o governo atribui esse movimento a políticas de cortes de impostos e desregulamentação, que teriam tornado o ambiente de investimento doméstico mais atrativo.

Contudo, a narrativa de euforia esbarra em uma realidade estatística desconfortável: a criação de empregos não acompanha o ritmo dos investimentos em capital fixo. Embora o volume de capital investido seja inegável, o mercado de trabalho no setor manufatureiro permanece estagnado, com níveis de emprego apenas ligeiramente superiores aos observados no pré-pandemia e quedas mensais recentes. A divergência entre o otimismo oficial e os números do Bureau of Labor Statistics (BLS) sugere que a economia americana vive uma fase de transformação profunda, mas que não se traduz necessariamente em novas oportunidades para a força de trabalho tradicional.

A natureza do crescimento sem vagas

A leitura aqui é que o país enfrenta um fenômeno de "crescimento sem empregos". Economistas do Goldman Sachs já haviam alertado que o sólido desempenho do PIB americano tem sido impulsionado por ganhos de produtividade, adoção de IA e gastos de capital, em vez de contratações generalizadas. Nesse cenário, o renascimento industrial é real em termos de infraestrutura e capacidade estratégica, mas não exige a mesma intensidade de mão de obra que as revoluções industriais do século passado.

O resultado é uma economia de "baixa contratação e baixa demissão", onde o foco das empresas está na automatização e na eficiência operacional. A adoção de tecnologias avançadas permite que as companhias expandam sua capacidade produtiva sem aumentar proporcionalmente o quadro de funcionários, deixando trabalhadores iniciantes, em particular, à margem dos grandes projetos de construção e operação de alta tecnologia.

Mecanismos de uma economia de duas vias

O economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok, oferece uma visão que corrobora o boom de investimentos, mas com cautela sobre as consequências macroeconômicas. Slok descreve uma economia de duas vias: um setor industrial e corporativo em forte expansão, sustentado por data centers e infraestrutura, e um setor consumidor que sofre com os juros elevados e os efeitos cumulativos da inflação passada.

Enquanto Bessent minimiza a inflação como um "lapso de curto prazo", Slok argumenta que a combinação de déficits fiscais, tarifas e demanda por investimento mantém pressões inflacionárias persistentes. A lógica é que o custo desse "renascimento" inclui um ambiente de taxas de juros mais altas por mais tempo, criando um descompasso entre o sucesso das grandes corporações e a percepção de estagnação das famílias.

Implicações para o ecossistema global

A tensão entre o investimento em capacidade produtiva e a fragilidade do emprego cria um dilema político e social significativo. Para os reguladores, o desafio é equilibrar a necessidade de reshoring e soberania industrial com a urgência de manter o bem-estar do mercado de trabalho. A experiência americana serve como um alerta para outras economias que buscam seguir políticas de reindustrialização: sem uma estratégia clara para absorver a força de trabalho, o crescimento industrial pode se tornar um evento isolado das classes trabalhadoras.

Para os investidores, a resiliência da economia americana, apesar dos custos, é um ponto positivo, mas os riscos inflacionários não podem ser descartados. A transição para uma economia baseada em capital e tecnologia exige que os formuladores de políticas entendam que o sucesso de um projeto de infraestrutura não é, por definição, um sucesso para a renda das famílias.

O futuro da manufatura americana

O que permanece em aberto é a sustentabilidade desse modelo no longo prazo. Se o renascimento industrial continuar a excluir a criação de empregos em larga escala, a pressão política por medidas mais protecionistas ou assistencialistas pode crescer, complicando o cenário de estabilidade econômica defendido pelo governo.

Os próximos trimestres serão cruciais para observar se a produtividade gerada por esses novos investimentos conseguirá, eventualmente, transbordar para o restante da economia ou se a disparidade entre o setor corporativo e o consumidor final se tornará um traço estrutural da nova era industrial dos Estados Unidos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune