A ideia de que todas as conversas intelectuais contemporâneas convergem invariavelmente para um punhado limitado de conceitos — o eterno retorno, a vontade de poder, o anjo da história — sugere uma espécie de exaustão criativa no pensamento moderno. É como se, após séculos de exploração, tivéssemos mapeado todos os picos da filosofia e, ao fazê-lo, os transformado em pastos comuns, desprovidos de mistério. No entanto, o surgimento de um novo conceito, como a "antifragilidade" de Nassim Taleb ou a "cruel otimismo" de Lauren Berlant, ainda possui o poder de eletrizar o debate, funcionando como ferramentas que testamos e instalamos em nossos sistemas de crenças. É nesse cenário de busca por novas funções intelectuais que a obra de René Daumal, particularmente seu romance póstumo e inacabado Mount Analogue, ressurge com um vigor quase profético.

A lógica do absurdo e o encontro improvável

Daumal, poeta, patafísico e buscador espiritual, construiu em Mount Analogue uma estrutura narrativa que desafia as categorias literárias tradicionais. O livro começa com uma premissa inusitada: um escritor publica um artigo especulando sobre a existência de uma montanha que, para unir o céu e a terra, precisaria ser geograficamente real, porém invisível aos olhos comuns. A resposta vem de um tal Padre Sogol — um nome que revela, se lido ao contrário, sua natureza de "logos" — que afirma ser o único outro homem a acreditar na existência desse pico. O que se desenrola não é apenas uma aventura, mas uma dialética singular que mistura a mensagem na garrafa com a folie à deux, onde o absurdo se torna o único caminho para a realidade.

O prisma das saídas pós-racionais

Para compreender Daumal, é preciso vê-lo como uma estação de comutação entre diferentes formas de saída do racionalismo. Ele transitou pelo surrealismo de Alfred Jarry, pela experimentação química e, finalmente, pelo estudo profundo das tradições espirituais, especialmente os ensinamentos de George Gurdjieff. Enquanto muitos intelectuais do pós-guerra buscavam refúgio na política ou na ciência, Daumal investigou o que chamava de "saídas pós-racionais". Sua escrita atua como um prisma: as influências da patafísica entram e se dividem em correntes que ecoam em figuras tão díspares quanto John Cage e Timothy Leary, demonstrando uma ressonância que transcende o tempo.

A armadilha dos especialistas e dos fugitivos

Em A Night of Serious Drinking, obra que serve como um prelúdio necessário, Daumal categoriza a humanidade em departamentos de "agitadores, fabricantes e clarificadores". Esses personagens, que ele chama de fugitivos, vivem em estados de embriaguez ilusória, acreditando ter superado a condição humana quando, na verdade, estão apenas desconectados de sua base real. O projeto de Daumal é justamente apontar para a existência de algo mais real, que só pode ser alcançado através do esforço genuíno e da angústia, e não por meio de fórmulas intelectuais prontas. A expedição a Mount Analogue é, portanto, a tentativa de transpor essa barreira entre a ilusão e a substância.

O cume inacessível como perfeição

O fato de o manuscrito de Daumal ter sido interrompido por sua morte, em maio de 1944, não representa uma falha, mas sim o fechamento sublime de sua tese. O livro termina no meio de uma frase, após descrever como a morte de um rato desestabilizou o ecossistema da montanha, revelando a teia invisível que sustenta a realidade. Como um projeto que precisa começar no absurdo poderia ter um final planejado? A incompletude da obra é, em última análise, a garantia de que o cume de Mount Analogue permaneça, para sempre, inacessível e, portanto, eternamente real.

Talvez a lição mais duradoura de Daumal não seja o destino da expedição, mas o reconhecimento de que a busca pela verdade exige uma disposição para habitar o paradoxo. Enquanto o mundo moderno insiste em catalogar e domesticar cada centímetro de nossa experiência, o convite para escalar uma montanha que é, simultaneamente, visível e invisível, permanece como um lembrete de que o verdadeiro conhecimento começa onde a razão admite sua própria limitação.

Com reportagem de 3 Quarks Daily

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