Casos como o de Marília Ramos Ribeiro, que superou desafios de saúde e biológicos para realizar o sonho da maternidade aos 40 anos, tornam-se cada vez mais frequentes no Brasil. A história de Marília, que envolveu múltiplas coletas de óvulos, fertilização e biópsia embrionária antes de uma gravidez bem-sucedida, ilustra a complexidade e a resiliência necessárias em tratamentos de reprodução assistida. O cenário brasileiro para essas técnicas tem sido impulsionado por um aumento notável na preservação de células reprodutivas. Dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Anvisa, indicam um crescimento de cerca de 136% no congelamento de óvulos e 66% no de embriões entre 2020 e 2025. Esse avanço científico, contudo, coexiste com um desafio persistente: o acesso limitado a essas tecnologias para a maioria dos brasileiros.

O Novo Perfil de Quem Busca Tratamentos

O aumento na demanda por congelamento de óvulos e embriões não se deve apenas à evolução tecnológica, mas também a uma mudança no perfil demográfico dos pacientes. Tradicionalmente, mulheres que buscavam congelar óvulos tinham em média 35 anos, idade em que a fertilidade feminina naturalmente começa a declinar. Atualmente, observa-se uma tendência de antecipação dessa busca, com mulheres mais jovens, na faixa dos 30 anos, procurando preservar sua capacidade reprodutiva. Essa mudança reflete um adiamento da maternidade e paternidade, associado a fatores sociais como a busca por educação superior, desenvolvimento de carreira e a espera por um parceiro estável. Além disso, o urologista Daniel Zylbersztejn, especialista em reprodução assistida do Fleury Fertilidade, aponta um crescimento na procura por pessoas trans, cujas terapias hormonais podem afetar a fertilidade. Curiosamente, o "congelamento social", como é chamado o procedimento realizado sem indicação médica de infertilidade, tem atraído casais que planejam ter filhos em um futuro distante, como uma estratégia para mitigar riscos reprodutivos associados ao envelhecimento. Essa diversificação de perfis demonstra como a reprodução assistida se tornou uma ferramenta multifacetada para a construção familiar.

Tecnologia de Ponta para Preservação e Seleção

A vitrificação emergiu como a técnica padrão ouro para o congelamento de óvulos e embriões, substituindo métodos mais lentos por sua eficácia em minimizar danos celulares. Este processo de congelamento ultrarrápido, seguido pelo armazenamento em nitrogênio líquido a -196°C, impede a formação de cristais de gelo que poderiam comprometer a integridade das células. A tecnologia também aprimorou a seleção de embriões. O desenvolvimento de técnicas como o teste genético pré-implantacional (PGT-A) permite analisar a totalidade dos cromossomos embrionários, identificando alterações genéticas e aumentando as chances de implantação e gravidez. O uso de incubadoras com sistema time-lapse, que registram o desenvolvimento embrionário em tempo real, auxilia embriologistas a avaliar a qualidade dos embriões com base em sua morfologia e velocidade de divisão celular. A inteligência artificial (IA) está se tornando uma aliada poderosa nesse processo, analisando imagens de óvulos e embriões para identificar padrões que indicam maior potencial reprodutivo, algo que pode escapar à percepção humana. Essas inovações, como o software Violet da Future Fertility, prometem refinar ainda mais a precisão e a eficácia dos tratamentos de reprodução assistida.

Infertilidade: Além da Biologia e da Tecnologia

Embora as tecnologias de preservação e seleção tenham avançado significativamente, a qualidade dos gametas continua sendo um fator determinante para o sucesso reprodutivo. A pesquisa recente tem expandido a compreensão sobre a infertilidade, investigando fatores que vão além da biologia feminina clássica. Um estudo recente publicado na The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health, por exemplo, associou a microbiota do sêmen e do intestino de homens e mulheres a taxas de sucesso gestacional. A identificação de disbiose seminal (desequilíbrio bacteriano no sêmen) mostrou uma correlação com menores taxas de nascidos vivos e maior risco de aborto espontâneo. Da mesma forma, alterações no microbioma intestinal feminino foram associadas a desfechos gestacionais negativos. Esses achados sugerem que a investigação da infertilidade deve considerar o casal como uma unidade, olhando para a saúde de ambos os parceiros de forma integral. A compreensão desses fatores, ainda que em fase de associação e não causalidade comprovada, abre novas frentes para o aconselhamento e tratamento, reforçando a ideia de que a reprodução assistida é um campo em constante evolução.

O Abismo entre Ciência e Acesso no Brasil

O Brasil se destaca como líder em reprodução assistida na América Latina, concentrando 40% dos centros da região. No entanto, essa proeminência científica não se traduz em acesso universal. O principal entrave, segundo especialistas como o professor Eduardo Motta da Unifesp, é o alto custo dos tratamentos. Enquanto o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece cobertura para casos específicos, como a preservação da fertilidade para pacientes com câncer, a maioria dos procedimentos de reprodução assistida é inacessível para grande parte da população. Essa disparidade é preocupante em um país com uma das menores taxas de fecundidade do mundo, atualmente em 1,6 filho por mulher, segundo o IBGE. A presidente da SBRH, Inês Cruzeiro, ressalta a importância de uma conscientização mais ampla entre os profissionais de saúde. O planejamento reprodutivo, historicamente associado à contracepção, precisa evoluir para incluir o planejamento da paternidade e maternidade, informando os cidadãos sobre todas as opções disponíveis. Expandir o acesso à reprodução assistida, talvez por meio de políticas públicas inovadoras, torna-se um debate urgente para garantir que os avanços científicos beneficiem um espectro maior da sociedade brasileira e contribuam para a reposição populacional futura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil