A retórica política frequentemente pinta a imigração como um jogo de soma zero, onde cada vaga ocupada por um estrangeiro seria uma oportunidade subtraída de um trabalhador nativo. Sob essa premissa, o governo Trump tem conduzido uma agenda de deportações em massa sob a promessa de restaurar a economia e fortalecer o mercado de trabalho interno. No entanto, uma análise histórica profunda realizada pelo Cato Institute revela uma realidade bem mais complexa e menos otimista para os defensores dessas restrições. Ao observar o impacto das leis de cotas implementadas nos anos 1920, pesquisadores identificaram que o fechamento das fronteiras não apenas falhou em proteger os trabalhadores nativos, mas acabou por corroer a mobilidade econômica de gerações sucessivas.
O espelho de uma década perdida
O estudo utilizou dados dos censos americanos de 1900, 1920 e 1940 para traçar o destino profissional de filhos de trabalhadores nativos em condados com diferentes níveis de exposição às cotas migratórias. O resultado foi uma correlação negativa notável: em áreas onde as restrições foram mais severas, a probabilidade de um filho ascender a um cargo de maior status que o de seu pai caiu drasticamente. A economia dos anos 1920, embora distante da era da inteligência artificial, oferecia uma lição sobre a interdependência laboral. Quando o fluxo migratório foi interrompido, o que se observou não foi uma ascensão mágica dos nativos, mas uma estagnação que sugere que a ausência de trabalhadores estrangeiros privou a economia de uma peça fundamental para a produtividade.
Mecanismos de complementaridade e queda
Por que o fechamento das fronteiras gerou efeitos contrários ao esperado? A resposta reside no conceito de complementaridade, onde trabalhadores imigrantes e nativos desempenham papéis que se reforçam mutuamente. Ao especializarem-se em tarefas distintas, os imigrantes permitiam que a força de trabalho nativa se concentrasse em funções de maior valor agregado, elevando a produtividade global do sistema. Sem esse suporte, a economia tornou-se menos eficiente, e os salários, longe de dispararem, sofreram pressões descendentes. O estudo aponta que um aumento de cinco pontos percentuais na exposição às cotas resultou em uma redução de 2,6% nos salários semanais dos trabalhadores nativos, desafiando a narrativa de proteção ao emprego local.
Tensões no mercado de trabalho atual
O cenário contemporâneo, marcado pelo declínio acentuado na imigração líquida, reflete tensões que ecoam o passado. Relatórios recentes do National Bureau of Economic Research indicam que, para cada seis imigrantes removidos da força de trabalho, um trabalhador nativo perdeu seu emprego em áreas com alta incidência de operações de deportação. Essa dinâmica é visível em setores críticos, como a construção, onde a escassez de mão de obra começa a frear projetos e elevar custos. A queda na taxa de participação da força de trabalho nativa, observada entre 2025 e 2026, sugere que a retirada forçada de trabalhadores não está gerando o preenchimento das vagas, mas sim um hiato produtivo que afeta a economia como um todo.
O custo de longo prazo
O que permanece incerto é a extensão do dano estrutural que essas políticas podem causar ao tecido econômico americano nas próximas décadas. Enquanto o governo mantém sua linha de ação, economistas observam com cautela a queda drástica na imigração líquida, projetada para níveis significativamente inferiores aos da década anterior. A interrogação que persiste não é apenas sobre o impacto imediato nas taxas de emprego, mas sobre a capacidade de inovação e especialização de uma economia que, ao tentar se fechar, pode estar limitando seu próprio potencial de ascensão social.
O passado não é um roteiro imutável, mas as lições de um século atrás oferecem uma perspectiva sóbria sobre o que acontece quando se confunde proteção com isolamento. Se as engrenagens da economia dependem de uma diversidade de talentos para girar, o que resta quando o fluxo é interrompido? A história sugere que a resposta pode ser um crescimento mais lento e uma mobilidade menos acessível para todos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





