Um raro retrato de múmia egípcia, conhecido como "Tondo dos Dois Irmãos", passou por um meticuloso processo de restauração no Egito, culminando em sua preparação para uma viagem internacional inédita. Datado do século II, o exemplar pertence à distinta coleção de pinturas de múmias de Fayum, descobertas na cidade homônima. Essas obras eram afixadas em múmias de indivíduos de elite que viveram no Egito durante o Período Romano, sendo notáveis pela técnica encaústica — o uso de cera quente misturada a pigmentos.

A restauração, que durou três semanas no Museu Egípcio do Cairo, contou com a colaboração de conservadores italianos do Museo dell’Ara Pacis, de Roma. O trabalho foi crucial para recuperar detalhes de uma das figuras retratadas, cujas feições haviam se perdido devido a danos causados por cupins. Além disso, a equipe corrigiu intervenções anteriores de especialistas que haviam alterado partes da obra, como a boca e o queixo de uma das figuras, que haviam sido posicionados incorretamente.

Um Legado Preservado

A importância cultural do "Tondo dos Dois Irmãos" reside não apenas em sua antiguidade e técnica artística, mas também no que representa sobre a sociedade egípcia sob o domínio romano. As pinturas de múmias de Fayum oferecem um vislumbre íntimo dos indivíduos, suas afiliações e aspirações, servindo como um elo tangível entre o passado e o presente. A restauração, detalhada em um vídeo divulgado pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, é um testemunho do compromisso do país em salvaguardar seu vasto patrimônio.

Cooperação Internacional em Foco

A colaboração entre o Egito e a Itália na restauração e exposição deste artefato sublinha a crescente importância da cooperação internacional na preservação do patrimônio cultural. Segundo Sherif Fathy, ministro egípcio de turismo e antiguidades, o projeto "traz juntas expertise egípcia e italiana para preservar uma obra de arte excepcional para as futuras gerações". Essa parceria não apenas garante a longevidade da obra, mas também enriquece o intercâmbio cultural entre as duas nações, que compartilham profundos laços históricos.

Exposição em Roma e Implicações

O "Tondo dos Dois Irmãos" será a peça central da exposição "O Poder da Retratística: Egito e Roma: Rostos de Fayum" no Museo dell’Ara Pacis, em Roma, a partir de 5 de novembro. A mostra reunirá cerca de 60 obras, incluindo empréstimos de instituições renomadas como o Louvre, em Paris. Para o Egito, a oportunidade de exibir um artefato tão significativo no exterior, especialmente após uma restauração tão delicada, representa um avanço na diplomacia cultural e na divulgação de seu legado histórico. A iniciativa também pode abrir portas para futuras colaborações em projetos de conservação e pesquisa.

Perguntas em Aberto

Embora a restauração e a exposição sejam marcos importantes, permanecem questões sobre a extensão do dano causado por cupins e outras degradações ao longo dos séculos, e se outras obras semelhantes requerem intervenções urgentes. A logística e os custos de transporte de artefatos tão frágeis e antigos também levantam debates sobre a segurança e a viabilidade de tais empreendimentos. A colaboração egípcio-italiana pode servir de modelo, mas a necessidade de recursos e expertise para preservar o imenso acervo egípcio é um desafio contínuo.

A viagem do "Tondo dos Dois Irmãos" à Itália marca um capítulo significativo na história da conservação de artefatos antigos, demonstrando que, com colaboração e expertise, tesouros do passado podem ser não apenas preservados, mas também compartilhados com o mundo, fortalecendo laços culturais e históricos. A exposição em Roma promete ser um evento de destaque, conectando o público contemporâneo com a arte e a vida do Egito Romano.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews