Sentado diante de uma máquina de escrever ou em um talk show, Rex Reed não buscava o consenso. Ele buscava a reação. Com sua morte aos oitenta e sete anos, o mundo do jornalismo cultural perde não apenas um cronista, mas a própria personificação do crítico como uma figura polarizadora, capaz de elevar um texto a uma forma de arte literária ou de reduzir a carreira de um ator a uma frase de efeito impiedosa. Segundo reportagem do Criterion Daily, Reed foi o epítome do crítico que não permitia que nuances ou segundas intenções atrapalhassem um comentário ácido, transformando a crítica em um espetáculo público tanto quanto os filmes que ele analisava.
O estilo como arma de combate
A carreira de Reed, que atravessou seis décadas, é um estudo sobre a evolução da autoridade cultural. Em uma era em que a crítica de cinema se tornou, em grande parte, uma extensão do marketing dos estúdios, o estilo de Reed — descrito por Charles McNulty como uma mistura de sadismo e alegria — parece quase anacrônico. Ele não apenas avaliava o filme; ele atacava a aparência dos atores e a própria existência de produções que considerava indignas. A ironia, claro, era constante: ele estrelou o infame Myra Breckinridge (1970), um filme que ele mesmo classificou como um dos dez piores do ano, demonstrando uma consciência peculiar sobre sua própria posição no ecossistema de Hollywood.
A complexidade por trás da acidez
No entanto, reduzir Reed à sua faceta de vilão seria ignorar a complexidade de sua trajetória. Farran Smith Nehme observa que a história completa de Reed é intrincada, marcada por posições políticas frequentemente ofensivas, mas também por atos de coragem intelectual. Ele defendeu publicamente cineastas como Peter Davis e Bert Schneider em momentos de pressão política intensa, mostrando que, por trás da máscara do provocador, existia um crítico capaz de reconhecer o valor artístico quando ele estava sob cerco. Essa dualidade é o que torna sua figura tão fascinante e, simultaneamente, difícil de classificar.
O papel do crítico na cultura contemporânea
A crítica cinematográfica atual, fragmentada entre influenciadores digitais e algoritmos de recomendação, raramente permite o espaço para a subjetividade feroz que Reed cultivou. Hoje, o debate sobre o papel do crítico gira em torno da utilidade e da orientação ao consumidor, deixando pouco espaço para a crítica como um exercício de temperamento ou um retrato da personalidade do autor. A análise de Leo Robson sobre A.S. Hamrah, outro crítico conhecido pela postura combativa, sugere que a crítica moderna ainda luta para equilibrar a necessidade de rigor com a tentação de se tornar apenas uma performance de negatividade.
Legado de um espelho quebrado
O que permanece, além das frases cortantes e das polêmicas, é a questão sobre a função do crítico. Se a crítica se torna apenas um reflexo do temperamento de quem escreve, ela ainda serve ao público ou serve apenas à construção de uma persona? A trajetória de Reed sugere que o crítico sempre foi, em última análise, um personagem em seu próprio drama. Enquanto olhamos para o futuro, resta saber se ainda haverá espaço para vozes que, mesmo quando erradas ou ofensivas, exigem que o espectador confronte sua própria relação com o que assiste.
O cinema, como a vida de Reed, é feito de contradições que raramente se resolvem em uma crítica definitiva. Talvez o maior legado de um crítico dessa estirpe não seja o que ele disse sobre os filmes, mas como ele forçou o cinema a se ver no espelho. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





