Em um cenário econômico cada vez mais polarizado, a mais recente pesquisa do Federal Reserve sobre Finanças do Consumidor (Survey of Consumer Finances) expõe uma realidade gritante: a riqueza nos Estados Unidos está se concentrando de forma alarmante nas mãos da geração mais velha, enquanto os jovens enfrentam um declínio de patrimônio. Entre 2022 e 2025, o patrimônio líquido mediano para domicílios chefiados por pessoas com 75 anos ou mais cresceu impressionantes 38%, corrigido pela inflação. Em contraste, para aqueles com menos de 35 anos, o número despencou 23% no mesmo período. Essa disparidade, que eleva a proporção de riqueza detida pelos mais velhos de 9 para 15 vezes em relação aos mais jovens, não é apenas um reflexo do tempo de acúmulo, mas um sintoma de dinâmicas sociais e econômicas mais profundas.
Um Abismo Geracional em Números
Os dados da Reserva Federal, considerados o padrão ouro para medir a riqueza das famílias americanas, pintam um quadro de crescente desigualdade. O patrimônio líquido mediano para os domicílios mais velhos saltou de $366.288 para $504.600, em dólares de 2025. Para os mais jovens, a queda foi de $42.725 para $32.820. Esses números, analisados por Nick Maggiulli, diretor de dados da Ritholtz Wealth Management, revelam que, enquanto o patrimônio líquido mediano de todas as famílias americanas cresceu apenas 2% ajustado pela inflação, as extremidades do espectro etário experimentaram trajetórias radicalmente opostas. O grupo de 55 anos ou mais agora detém cerca de $140 trilhões, aproximadamente três quartos da riqueza nacional, segundo análise do Bank of America Institute. Essa concentração de riqueza não apenas molda a experiência individual, mas também tem implicações significativas para o sistema político e econômico, alimentando debates sobre a influência desproporcional dos idosos.
A 'Oldigarchy' e a Concentração de Poder
O professor de direito e história de Yale, Samuel Moyn, argumenta em seu livro "Gerontocracy in America" que essa concentração de riqueza entre os mais velhos não é acidental, mas sim um reflexo de um sistema que favorece os idosos. Ele cunha o termo "oldigarchy" para descrever um cenário onde os americanos mais velhos, desproporcionalmente ricos, exercem uma influência excessiva. "Os americanos mais velhos controlam as maiores contas bancárias e portfólios de ações", afirma Moyn, destacando que "os velhos ricos se distanciaram de todos os outros". Os dados recentes da Fed parecem reforçar essa tese, mostrando que a correlação entre ser rico e ser mais velho, e pobre e ser mais jovem, é cada vez mais acentuada. Moyn questiona a justiça desse sistema, onde os mais velhos não apenas acumulam mais, mas também se beneficiam de um cenário econômico que, em grande parte, foi moldado por suas gerações, muitas vezes através de bolhas de ativos e políticas que favorecem a manutenção da riqueza herdada.
Mecanismos da Disparidade: Ativos e Oportunidades
A diferença na trajetória de riqueza entre as gerações pode ser atribuída, em parte, à composição dos ativos que cada grupo detém e às oportunidades de investimento disponíveis. Domicílios mais velhos tendem a possuir uma parcela maior de seus ativos em imóveis e investimentos financeiros, que se valorizaram significativamente nos últimos anos. Em contrapartida, domicílios mais jovens têm uma proporção maior de seus ativos em veículos, cujos valores caíram, e menor acesso à propriedade imobiliária – a participação de domicílios com menos de 35 anos que possuíam uma casa caiu de 38,5% em 2022 para 35,6% em 2025. Além disso, a geração mais jovem, especialmente Gen Z, enfrenta um mercado de trabalho mais desafiador e um custo de moradia historicamente alto. Enquanto os mais velhos se beneficiaram de um ambiente de baixas taxas de juros e valorização de ativos, os mais jovens lutam para construir patrimônio em um contexto de inflação persistente e acesso limitado ao crédito e à propriedade.
Implicações Políticas e Sociais
A crescente disparidade de riqueza entre gerações tem profundas implicações políticas e sociais. A sensação de estagnação ou declínio financeiro entre os jovens pode alimentar frustração e descontentamento, influenciando comportamentos eleitorais. O recente aumento do apoio a figuras políticas como Donald Trump entre homens jovens, por exemplo, pode ser, em parte, um reflexo dessa "desesperança juvenil" em uma sociedade percebida como organizada em torno das vantagens dos mais velhos. A concentração de poder econômico nas mãos de uma demografia mais velha também levanta questões sobre a equidade das políticas públicas, que podem acabar favorecendo os interesses de quem já possui riqueza estabelecida, em detrimento das necessidades e aspirações das gerações futuras. A "gerontocracia" não se manifesta apenas na política partidária, mas nas próprias estruturas econômicas que perpetuam a vantagem dos mais velhos.
Essa divisão geracional na acumulação de riqueza nos Estados Unidos não é apenas uma estatística fria; é um retrato da complexa teia de fatores econômicos, sociais e políticos que moldam as oportunidades e os resultados de vida. A questão que permanece é como a sociedade americana irá navegar essa crescente desigualdade, buscando um equilíbrio que ofereça oportunidades mais equitativas para todas as gerações, ou se a tendência de concentração de riqueza e poder continuará a se acentuar, definindo um futuro cada vez mais segmentado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





