O Vale do Silício, outrora cético em relação a investimentos em hardware, agora está inundado por dezenas de bilhões de dólares direcionados a robôs e à chamada "IA física". Uma conjunção de fatores — hardware mais barato, modelos de IA mais inteligentes, escassez de mão de obra e a competição com a China — criou um ambiente propício para que máquinas capazes de realizar tarefas no mundo real se tornem a próxima grande fronteira da inteligência artificial, superando o foco em chatbots.

No primeiro semestre deste ano, empresas de robótica e IA física arrecadaram globalmente US$ 33,4 bilhões, superando os US$ 28,7 bilhões de todo o ano anterior e os pouco menos de US$ 5 bilhões de 2020. Gigantes como Anduril (US$ 5 bilhões), Saronic (US$ 1,75 bilhão) e Skild AI (US$ 1,4 bilhão) receberam cheques bilionários. "Em meus 45 anos neste campo, este é o maior financiamento, energia e interesse em robótica que já vi", afirmou Ken Goldberg, professor de robótica da UC Berkeley e cofundador da Ambi Robotics.

O boom da IA física

A promessa da robótica reside em sua capacidade de atuar no mundo físico, um mercado vasto que, segundo Jensen Huang, CEO da Nvidia, representa uma oportunidade de US$ 50 trilhões "largamente desprovida de tecnologia até agora". Diferentemente do software, confinado a telas, os robôs visam automatizar o trabalho em fábricas, construção civil e, potencialmente, em residências. A Nvidia tem sido uma força motriz, com seu CEO popularizando o termo "IA física" e muitos ex-funcionários lançando suas próprias startups no setor.

No entanto, o entusiasmo tem levado a avaliações especulativas. Startups em fase de pesquisa e desenvolvimento alcançam múltiplos bilionários, muitas vezes com receita limitada ou poucas implantações. A Figure AI, fabricante de robôs humanoides, alcançou uma avaliação de US$ 39 bilhões no ano passado, apesar de suas implantações se limitarem a testes em pequenas fábricas. "Robótica vai acontecer, e muito dinheiro ainda será perdido. Ambas as coisas são verdadeiras", ressalta Sarah Guo, fundadora da firma de venture capital Conviction.

Da irrelevância ao frenesi

Por décadas, o investimento em robótica foi considerado um caminho para perder dinheiro. A construção de robôs exigia hardware caro, fábricas e cadeias de suprimentos complexas para máquinas de propósito único e frágeis. "Os modelos não funcionavam", explica Guo. Ajay Agarwal, da Bain Capital Ventures, foi um dos poucos a apostar no setor, investindo na Kiva Systems em 2004, pioneira em automação de armazéns com robôs móveis. A Kiva, posteriormente adquirida pela Amazon por US$ 775 milhões em 2012, enfrentou dificuldades para levantar capital na "Sand Hill Road", o epicentro do capital de risco em hardware.

As mudanças na IA, especialmente em machine learning, permitiram que robôs percebessem o ambiente, tomassem decisões e se adaptassem a novas tarefas, abrindo caminho para máquinas mais versáteis. O barateamento do hardware e da computação também tornou a economia mais atraente. Figuras proeminentes como Travis Kalanick (Atoms, US$ 1,7 bilhão), RJ Scaringe (Mind Robotics, US$ 900 milhões) e Kyle Vogt (The Bot Company, US$ 300 milhões) lideram novas empreitadas. Grandes empresas de tecnologia, como OpenAI, Meta e Google, também estão investindo pesadamente, com a Tesla apostando seu futuro no robô humanoide Optimus.

O risco dos "turistas de hardware"

Veteranos do setor expressam preocupação com o influxo de "turistas de hardware" — investidores atraídos pelo hype da IA que subestimam a dificuldade de construir máquinas confiáveis para o mundo real. O precedente dos veículos autônomos, que consumiram bilhões nos anos 2010 com resultados aquém do esperado, serve de alerta. A robótica enfrenta obstáculos formidáveis: a falta de um vasto conjunto de dados para treinamento no mundo físico, a complexidade de fabricação, manutenção e implantação de hardware caro. "A parte mais difícil da IA física é a parte física", diz Charly Mwangi, da Eclipse.

Algumas das apostas mais especulativas, como humanoides e modelos de robôs de propósito geral, atraíram os maiores investimentos. "Você não pode levantar dinheiro com demonstrações para sempre", alerta Sanjay Aggarwal, da F-Prime. "Eu ficaria surpreso se todas essas empresas existissem independentemente daqui a dois ou três anos".

O futuro incerto da automação

Apesar dos riscos, há sinais de que algumas empresas estão encontrando seu caminho. Field AI e Skild AI relatam centenas de milhões em receita e contratos significativos. Brad Porter, ex-chefe da Amazon Robotics, prevê um "momento ChatGPT para robótica" com avanços em manipulação destreza, o que poderia desencadear uma "explosão cambriana de robôs". Contudo, a questão central é se esses avanços ocorrerão rápido o suficiente para justificar o capital investido. Matt Murphy, da Menlo Ventures, adverte que financiamento abundante pode levar a "desleixo" nas startups, aumentando o risco de grandes perdas para os investidores.

O caminho para a plena integração da robótica na economia global ainda é incerto. A capacidade de transpor a complexidade do mundo físico para máquinas eficientes e econômicas determinará se este boom de investimento resultará em uma revolução tecnológica sustentável ou em uma bolha especulativa. A próxima fase exigirá não apenas inovação em IA, mas também excelência na engenharia, fabricação e implantação de hardware.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider