A câmera sempre foi, para Rosalie Favell, um ponto de convergência. Enquanto crescia em Winnipeg, a jovem Favell via nos álbuns de família não apenas retratos, mas lacunas. Em um contexto onde a identidade Métis — o povo indígena resultante da miscigenação histórica entre europeus e povos originários — era frequentemente ocultada sob o manto da assimilação para garantir a sobrevivência em um sistema colonial hostil, a fotografia tornou-se seu instrumento de arqueologia pessoal. Hoje, com uma trajetória que atravessa quatro décadas, Favell não apenas documenta sua própria existência, mas oferece ao público uma lente sobre a complexa interseção entre a herança indígena e a vida queer.

O arquivo como ferramenta de resistência

A busca de Favell por si mesma começou tardiamente, movida por uma necessidade urgente de nomear o que estava oculto. Ela recorda que o reconhecimento de sua linhagem Cree, vinda de uma tataravó, exigiu um trabalho minucioso de pesquisa genealógica, facilitado pelos registros da Hudson’s Bay Company. Para ela, a fotografia funcionou como uma forma de validar essa presença invisibilizada. Ao fotografar mulheres indígenas e, posteriormente, ao se aventurar na colagem digital, Favell passou a inserir a si mesma nos espaços onde sentia que pertencia, desafiando a narrativa de que a identidade indígena deveria seguir padrões estáticos impostos pelo olhar externo.

A intersecção entre o ser Métis e a vivência lésbica

Curiosamente, o processo de assumir sua homossexualidade precedeu a afirmação de sua identidade indígena. Nos anos 70 e 80, durante a segunda onda do feminismo, Favell buscou em comunidades underground o suporte que sua estrutura familiar tradicional não oferecia. A série Living Evidence (1994), que utiliza Polaroids de um relacionamento passado, ilustra a tensão daquela época: a necessidade de proteger a identidade da parceira com fita adesiva, enquanto ela mesma, como autora da imagem, começava a se revelar. Essa dualidade entre o segredo e a exposição é o cerne de seu trabalho, onde o ato de criar é, essencialmente, um ato de sobrevivência política.

A tecnologia como extensão da narrativa

A transição para a colagem digital nos anos 90 marcou uma mudança fundamental em sua prática. Ao aprender a manipular imagens, Favell encontrou a liberdade de se posicionar como heroína de sua própria história, sobrepondo seu rosto a figuras icônicas como a guerreira Xena. Essa apropriação não era apenas lúdica; era uma forma de construir mitologias pessoais que preenchiam o vazio de representação. A fotografia, antes limitada ao registro documental, passou a ser uma construção narrativa, onde a artista reescreve o passado ao mesmo tempo em que projeta um futuro possível.

O legado de uma presença documentada

O projeto Facing the Camera, que reúne retratos de centenas de artistas indígenas, reflete o amadurecimento dessa visão. Favell entende hoje que sua prática é uma forma de cápsula do tempo, garantindo que a presença física e a energia de seus pares sejam preservadas contra o esquecimento. Ao olhar para trás, para as fotos de sua infância, ela não vê apenas uma criança, mas um rastro de evidências que apontam para quem ela se tornou. A pergunta que permanece, ecoando em seu trabalho, é sobre quanto de nós mesmos somos capazes de resgatar quando finalmente nos damos permissão para ocupar o próprio quadro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic