No cinema polonês contemporâneo, poucas premissas são tão diretas quanto a de “What Belongs to Others”. O filme de Grzegorz Dębowski, apresentado no Festival de Veneza, acompanha Kasia, uma ladra de meia-idade que sobrevive de pequenos furtos em apartamentos. Sua rotina muda drasticamente quando, ao retornar a um imóvel que havia acabado de roubar, encontra o morador morto, enforcado.

O que se desenrola a partir daí, segundo a crítica da publicação britânica Little White Lies, é uma transição deliberada de um thriller de suspense para um drama psicológico. Em vez de fugir, Kasia, interpretada por Monika Sabina Kwiatkowska, assume a identidade da namorada do falecido. O movimento serve como ponto de partida para uma análise sobre a possibilidade de se reinventar a partir dos destroços da vida de um estranho.

Do suspense à empatia

A primeira metade do filme constrói uma atmosfera de tensão, com uma cinematografia ágil e câmera na mão que mergulha o espectador na precariedade da vida de Kasia, presa a um namorado abusivo e a um ciclo de crimes. A descoberta do corpo é o clímax dessa construção, mas também seu ponto de inflexão. A partir desse momento, a narrativa abandona a urgência do suspense em favor de uma exploração mais lenta e introspectiva.

Ao se passar pela namorada do morto, Kasia começa a montar o quebra-cabeça de uma vida tão solitária e marcada por más escolhas quanto a sua. O interesse, inicialmente financeiro, evolui para uma conexão póstuma e uma busca por redenção. Ela passa a confrontar seu próprio passado, devolvendo parte do que roubou e, finalmente, rompendo com seu parceiro. A direção de Dębowski acompanha essa jornada com uma empatia crescente pela protagonista.

A arquitetura da redenção

Essa transformação, no entanto, não ocorre sem comprometer a estrutura inicial do filme. A crítica aponta que a virada para o melodrama acontece de forma um tanto apressada, diluindo a tensão que o filme havia estabelecido com tanto cuidado. O roteiro concede a Kasia a sorte necessária para escapar das consequências de seus atos, enquanto a polícia já investiga seus rastros, o que pode testar a suspensão de descrença do espectador.

A jornada de Kasia culmina em um monólogo final descrito como “descaradamente melodramático”, mas sincero. Nele, a personagem se despede tanto do homem cuja vida ela se apropriou quanto da pessoa que ela mesma costumava ser. É uma conclusão que solidifica a tese do filme: uma mulher que vivia de tomar o que pertencia aos outros finalmente encontra uma forma de retribuir, mesmo que simbolicamente.

O longa transforma uma premissa de crime em uma parábola sobre identidade. A questão que permanece é se uma nova vida, construída sobre uma mentira, pode de fato ser autêntica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies