Ryan Breslow, CEO da fintech Bolt, causou polêmica ao declarar que a eliminação de todo o departamento de recursos humanos da empresa foi uma medida necessária para remover obstáculos internos. Em painel no Workforce Innovation Summit da Fortune, o executivo de 31 anos afirmou que a equipe de RH criava problemas inexistentes, os quais teriam desaparecido após o desligamento dos profissionais. A decisão integra um plano de choque para reverter a trajetória da companhia, que viu seu valor de mercado encolher quase 97% desde 2022.

O movimento reflete o que Breslow descreve como um estado de 'tempo de guerra'. Após deixar o cargo de CEO e retornar em 2025, ele encontrou uma organização que, segundo sua análise, havia se tornado burocrática e acomodada. A estratégia agora foca em uma estrutura enxuta, com cerca de 100 funcionários, operando sob uma mentalidade de startup voltada para a execução rápida e a redução de custos operacionais.

A falência do modelo de gestão anterior

A retórica de Breslow aponta para uma desconexão entre a cultura corporativa adotada durante o hipercrescimento da Bolt e a realidade financeira atual. Durante o período de expansão, a empresa atingiu uma avaliação de US$ 11 bilhões, atraindo talentos e adotando práticas como semanas de trabalho de quatro dias e licença remunerada ilimitada. Para o CEO, tais benefícios contribuíram para uma sensação de merecimento que, em última análise, minou a produtividade e o foco no produto.

O retorno ao comando trouxe a imposição de uma cultura mais austera. Breslow estabeleceu um prazo de 60 dias para que os funcionários remanescentes se adaptassem ao novo regime de trabalho, resultando na saída de quase toda a liderança anterior. O argumento central é que o modelo de 'liderança consciente', antes defendido por ele, tornou-se um luxo insustentável para uma empresa que precisava desesperadamente de liquidez e foco operacional.

O RH como alvo da disrupção

A eliminação do RH levanta questões sobre o papel das funções de suporte em empresas de tecnologia. Breslow argumenta que o departamento, em sua forma tradicional, atua como um freio na tomada de decisão e na velocidade de execução. Ele prefere o conceito de 'people operations', que, em sua visão, deve estar estritamente alinhado aos objetivos de negócio e ao empoderamento dos gestores, em vez de atuar como uma camada de supervisão burocrática.

Essa visão de que o RH pode ser um entrave em momentos de crise é um tema recorrente em ambientes de alta pressão. No entanto, a substituição de especialistas por uma equipe de operações mais junior, focada exclusivamente em produtividade, levanta riscos de governança e gestão de talentos. A aposta da Bolt é que a agilidade compensará a perda de processos estruturados de gestão de pessoas.

Tensões na cultura organizacional

As mudanças na Bolt não foram isentas de controvérsias. Rumores sobre retenção de salários e pagamentos pendentes a contratados circularam nos últimos meses, alegações que o CEO nega categoricamente. O embate entre a necessidade de sobrevivência financeira e a manutenção de um ambiente de trabalho minimamente estável coloca o estilo de liderança de Breslow sob escrutínio constante, tanto de investidores quanto de observadores da indústria.

Para os stakeholders, o caso serve como um lembrete dos riscos associados a empresas que crescem rápido demais sem uma base operacional sólida. A transição forçada para uma cultura de 'mãos na massa' pode trazer resultados imediatos, mas a sustentabilidade de uma organização que dispensa funções de suporte crítico permanece em aberto.

O futuro da Bolt no mercado

O sucesso da nova estratégia será medido pela capacidade da empresa em entregar seu produto como um 'SuperApp' financeiro. Breslow afirma que os clientes já notam uma melhora no atendimento, mas a viabilidade de longo prazo dependerá da retenção de talentos em um ambiente de trabalho descrito como intensamente exigente. A questão que permanece é se a cultura de desconfiança e austeridade será suficiente para reconstruir a credibilidade da marca.

O mercado observará se a Bolt conseguirá escalar novamente sem repetir os erros de governança do passado. O desafio de Breslow não é apenas cortar custos, mas provar que a empresa pode ser resiliente sem sacrificar a integridade do seu capital humano. A trajetória da fintech continua sendo um estudo de caso sobre os limites da cultura de startup em tempos de escassez.

A mudança radical na Bolt sugere que o pêndulo da gestão de tecnologia pode estar voltando para um modelo de comando e controle mais rígido. A capacidade de Breslow em sustentar essa estrutura, enquanto mantém a inovação e o moral da equipe, será o verdadeiro teste de sua liderança.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune