A cidade sueca de Karlskoga, historicamente ligada à indústria de defesa, vive uma transformação visível em seus estacionamentos e canteiros de obras. O que antes era um cenário de encolhimento industrial, reflexo do fim da Guerra Fria, deu lugar a uma expansão acelerada da Saab, impulsionada pelo novo cenário geopolítico europeu. Segundo reportagem da Bloomberg Línea, a empresa opera hoje com cerca de 2.600 funcionários na cidade e mobiliza um ecossistema de 4.000 pessoas, mantendo mais de 60 projetos de infraestrutura simultâneos para atender à demanda por sistemas de mísseis e defesa terrestre.

Este movimento não é isolado, mas parte de uma mudança estrutural na estratégia de defesa da Europa. A invasão da Ucrânia em 2022 e a entrada oficial da Suécia na Otan em 2024 serviram como um alerta para governos que, por décadas, reduziram estoques e capacidades produtivas. A prioridade atual dos clientes, segundo executivos da companhia, deslocou-se do custo para a urgência de entrega, forçando a Saab a multiplicar sua capacidade industrial em diversas frentes para responder a conflitos convencionais de longa duração.

O fim da era de desarmamento

Karlskoga carrega o legado da Bofors, tradicional fabricante que foi fragmentada após a redução global dos gastos militares no final do século XX. A Saab absorveu as operações de sistemas de combate e mísseis, integrando-as à sua área de negócios Dynamics. Durante anos, a indústria local lidou com a ociosidade, um processo que Hans Albrektsen Wahlstedt, diretor de relações regionais da Saab, descreve como um esvaziamento progressivo das fábricas que ele acompanhou desde a infância.

Hoje, a dinâmica inverteu-se completamente. A necessidade de prontidão militar forçou uma revisão das estratégias de estoques e de produção. Países que antes focavam em missões expedicionárias, como as realizadas no Afeganistão, agora exigem capacidade para sustentar guerras convencionais prolongadas. A Saab, estruturada em quatro divisões, viu a Dynamics e a Surveillance ganharem protagonismo, com esta última consolidando-se através de sistemas de vigilância avançados, como o GlobalEye, que monitoram ameaças em terra, mar e ar simultaneamente.

Mecanismos de crescimento e gargalos

O crescimento da Saab reflete-se em números expressivos. No primeiro trimestre de 2026, a receita da companhia atingiu 19,2 bilhões de coroas suecas, uma alta de 21% em relação ao ano anterior, enquanto a carteira de pedidos saltou para 274,1 bilhões de coroas suecas. Esse volume de encomendas, contudo, impõe desafios logísticos severos. A empresa admite operar em um ambiente de oferta restrita, onde a cadeia de suprimentos de componentes e matérias-primas críticas tornou-se o principal gargalo para a escalada produtiva.

A natureza da produção de defesa, que ainda exige alto grau de especialização e etapas manuais, limita a velocidade de automação plena. Para mitigar riscos, a Saab tem adotado estoques seletivos de componentes e mantido diálogo constante com fornecedores. A empresa, que hoje emprega cerca de 29 mil pessoas globalmente, compara o ritmo atual de contratações e expansão ao de uma startup, buscando escalar não apenas em solo sueco, mas também nos Estados Unidos e na Índia.

Implicações para o ecossistema de defesa

A reconfiguração da Saab impacta diretamente seus stakeholders, de governos europeus a parceiros internacionais como o Brasil, que negocia a ampliação da frota de caças Gripen. A demanda por radares como o Giraffe 1X, cuja produção dobrou em apenas seis meses, ilustra como a tecnologia sueca tornou-se peça-chave na estratégia de defesa de aliados da Otan e dos Estados Unidos. A tensão entre a capacidade instalada e a necessidade urgente de reposição de arsenais coloca a indústria sob pressão constante.

Para o mercado brasileiro, a relação com a Saab é estratégica, focada na transferência de tecnologia e na soberania aérea. Contudo, a prioridade da empresa em atender à demanda europeia pode trazer novos desafios para o cronograma de entregas e integrações internacionais. O cenário exige um equilíbrio delicado entre a expansão industrial necessária para a segurança da Europa e a manutenção dos compromissos globais assumidos pela companhia em tempos de paz.

Perspectivas e incertezas

O futuro próximo da Saab depende da sua capacidade de sustentar o ritmo de contratações e a estabilidade da cadeia de fornecedores. A incerteza sobre a duração dos conflitos atuais e a continuidade do fluxo de encomendas mantém o setor em alerta. Observar como a empresa integrará novas unidades de produção e se a automação conseguirá, de fato, acelerar as entregas sem comprometer a segurança dos equipamentos será fundamental.

O sucesso da Saab em Karlskoga demonstra que a indústria de defesa voltou ao centro da agenda econômica sueca. O desafio agora é transformar o pico de demanda atual em uma estrutura industrial resiliente e perene, capaz de suportar as incertezas geopolíticas da próxima década sem sacrificar a eficiência que tornou a marca uma referência global em tecnologia militar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea