A SaaSholic acaba de fechar a captação de seu terceiro e maior fundo, no valor de US$ 30 milhões. O veículo, três vezes superior ao anterior, chega em um momento de inflexão para o mercado de software, com a inteligência artificial generativa redesenhando produtos e estratégias de investimento. O foco da gestora permanece em empresas de software B2B em estágio semente (Seed), com cheques que agora variam entre US$ 1 milhão e US$ 1,5 milhão.

Mais do que o volume, o que define o novo fundo é a consolidação de uma tese que inverte a lógica tradicional do venture capital na América Latina. Em vez de apenas importar e adaptar modelos de negócios de mercados maduros, a SaaSholic quer usar uma fatia relevante do capital para exportar soluções criadas na região, especialmente para os Estados Unidos. É uma aposta na originalidade e na sofisticação do ecossistema local, financiada por nomes como Spectra, Evertec e fundadores de peso como os da Omie, Neon e Hotmart.

O “homem do futuro” olha para fora

A estratégia, batizada pela gestora de “homem do futuro”, baseia-se em identificar empreendedores que perceberam uma transformação em um mercado e podem replicar esse aprendizado em outro. Se antes o fluxo era unidirecional — dos EUA para o Brasil —, a SaaSholic agora quer explorar o caminho inverso. Segundo reportagem do portal Startups, entre 30% e 40% do novo capital será destinado a essa tese internacional.

O movimento não é meramente teórico. A casa já testou a hipótese com investidas como a Clad, que levou um modelo brasileiro de gestão de inadimplência no setor educacional para os EUA. A leitura é que certas dores de mercado na América Latina geraram soluções robustas e eficientes, que podem encontrar um terreno fértil e menos competitivo em nichos de mercados desenvolvidos. A proposta é investir em fundadores latinos que constroem negócios para o mundo, a partir de uma perspectiva única.

Uma gestora “AI-Native”

Ao mesmo tempo que aposta em teses globais, a SaaSholic aplica a transformação digital dentro de casa. A gestora se define como “AI-Native”, utilizando inteligência artificial não apenas como critério de investimento, mas como motor de suas próprias operações. A empresa reconstruiu seu stack de tecnologia e implementou agentes de IA para enriquecer a análise de oportunidades e buscar proativamente startups alinhadas à sua tese.

O resultado, segundo William Cordeiro, um dos sócios, foi um salto de cinco vezes na capacidade de cobertura de novas empresas em um único trimestre. A tecnologia, contudo, não substitui o fator humano. O fundo manterá um portfólio concentrado de cerca de 15 empresas, permitindo um acompanhamento próximo pelos sócios. A IA serve como uma camada de escala para a prospecção e análise, enquanto a decisão e o suporte permanecem artesanais. Essa abordagem espelha a visão da gestora sobre o futuro do software: menos uma ferramenta operada por humanos e mais um agente autônomo que executa tarefas.

A SaaSholic parece construir uma aposta dupla. De um lado, na capacidade do empreendedor latino de criar soluções globais. De outro, na simbiose entre a curadoria humana e a escala da máquina para encontrar as melhores oportunidades. É um fundo que nasce com uma visão clara sobre onde o software vai e de onde virão os próximos grandes fundadores.

Com reportagem de Brazil Valley

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