O Itaú BBA elevou o preço-alvo das ações da Sabesp (SBSP3), mantendo a recomendação de compra para os papéis da companhia. Segundo relatório assinado pelos analistas Fillipe Andrade e Lucas Guimarães, o mercado tem subestimado a capacidade da empresa de se transformar em uma consolidadora do setor de saneamento, focando excessivamente nos desafios do ciclo de investimentos obrigatórios até 2033.
A tese central do banco aponta que a Sabesp possui um "ativo escondido" em seu balanço, representado pelo fluxo de caixa excedente que deverá ser gerado à medida que os novos ativos amadurecerem. Em vez de atuar apenas como uma operadora defensiva, a companhia estaria se posicionando para utilizar sua estrutura de capital como uma plataforma ofensiva de expansão, aproveitando leilões e novas oportunidades de mercado.
A transição para uma plataforma de consolidação
Historicamente, o debate sobre a Sabesp girou em torno das exigências de universalização do saneamento e do elevado capex necessário para cumprir as metas regulatórias. Contudo, a análise do Itaú BBA sugere que essa visão é incompleta. Ao focar apenas no custo dos investimentos, os investidores deixariam de precificar a opcionalidade estratégica que esses mesmos gastos criam para a empresa no longo prazo.
A posição privilegiada da Sabesp, detentora da maior concessão do estado de São Paulo, confere à companhia uma vantagem competitiva de escala. Essa infraestrutura consolidada permite que a empresa absorva novos projetos com maior eficiência marginal do que competidores menores. A expectativa é que, com o amadurecimento dos ativos, a Sabesp deixe de ser apenas uma executora de obras para se tornar uma força dominante na reorganização do setor.
O papel do projeto Universaliza 2
O principal catalisador para essa virada de chave é o projeto Universaliza 2. O banco estima que este programa possa adicionar até R$ 13 bilhões ao valor da companhia, além de elevar a taxa interna de retorno (TIR) em mais de 100 pontos-base. O modelo combina investimentos expressivos, na casa dos R$ 50 bilhões, com um arcabouço regulatório que a Sabesp já domina.
A dinâmica aqui é de escala. Ao aproveitar sua presença geográfica e a expertise técnica acumulada, a Sabesp consegue mitigar os riscos de execução que normalmente acompanham projetos dessa magnitude. A conversão desse potencial em retorno financeiro real dependerá da capacidade da gestão em manter a disciplina de capital durante a fase de maior desembolso, transformando o balanço em um motor de aquisições.
Riscos regulatórios e tributários
Embora a perspectiva seja otimista, o Itaú BBA alerta para riscos subestimados, como os impactos da reforma tributária. A neutralidade desse processo depende fundamentalmente da atuação do regulador no ajuste das tarifas e da base regulatória de ativos (RAB). Qualquer falha na recomposição do equilíbrio econômico-financeiro poderia resultar em destruição de valor para os acionistas.
Além disso, a migração para um modelo de custo regulatório eficiente (DRC) introduz uma assimetria operacional. Durante o pico dos investimentos, os ganhos ficam limitados, mas o modelo abre espaço para capturar eficiências significativas no futuro. O desafio para a companhia será equilibrar essa limitação de ganhos de curto prazo com a necessidade de manter o ritmo de expansão exigido pelo mercado.
Perspectivas para o setor
O mercado de saneamento no Brasil vive um momento de consolidação inédito, descrito como uma oportunidade geracional. A pergunta que permanece é se a Sabesp conseguirá, de fato, converter sua superioridade operacional em uma vantagem competitiva sustentável frente a novos players e mudanças regulatórias.
O acompanhamento dos próximos leilões e da execução do Universaliza 2 será fundamental para validar essa tese de valorização. A transição de um modelo defensivo para um ofensivo marca uma nova etapa na história da companhia, que agora precisa provar que seu caixa futuro compensa o peso dos investimentos atuais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times — Mercados





