O sol de junho incide tradicionalmente sobre as marismas de Almonte, onde o som dos cascos ecoa como um relógio biológico que não conhece o ritmo das cidades modernas. Mais de 1.500 cavalos percorrem as ruas da aldeia de El Rocío em um movimento que desafia a cronologia oficial. Juanma Moreno, presidente da Junta de Andalucía, tem reforçado o apoio a este rito, que, embora regulamentado por documentos de 1504, carrega em seu DNA uma ancestralidade que remonta aos tempos tartessos e romanos. Não se trata apenas de uma celebração ganadeira, mas de um encontro entre a história viva e a paisagem que a sustenta.

A persistência da identidade marismeña

A Saca de las Yeguas funciona como uma ponte entre eras distintas. A figura do yegüerizo, guardião desse patrimônio, mantém viva uma linhagem que atravessou invasões, impérios e a própria transição das estruturas agrárias europeias. Durante o período de Al-Andalus, a criação caballar nas marismas do Guadalquivir já era motivo de admiração, documentada por cronistas que viam naqueles animais a força que alimentava tanto a agricultura quanto os estandartes militares. A permanência desse hábito, que atrai mais de 300 mil visitantes anualmente, sugere que a identidade regional não se constrói apenas em livros, mas na repetição de gestos que unem o homem ao território.

O equilíbrio entre tradição e ecologia

O papel dos cavalos marismeños transcende a cultura; eles são peças fundamentais no equilíbrio ecológico de uma das áreas protegidas mais sensíveis da Europa: o Parque Nacional de Doñana. A feralidade desses animais contribui para a manutenção da biodiversidade, transformando uma prática ancestral em um ativo de conservação ambiental. O desafio contemporâneo reside em como proteger esse legado sem fossilizá-lo, garantindo que a atividade econômica gerada pelo evento — que beneficia toda a zona — seja compatível com a fragilidade do ecossistema que o abriga.

Tensões e o papel institucional

Para o governo regional, o respaldo institucional à Saca de las Yeguas é um ato de afirmação política e simbólica. Ao elevar o evento à categoria de pilar da idiosincrasia andaluza, as autoridades buscam ancorar a modernidade em raízes que oferecem um senso de continuidade em um mundo globalizado e volátil. No entanto, a pressão por sustentabilidade coloca essa tradição em um campo de tensões, onde o interesse turístico deve ser obrigatoriamente mediado pela proteção rigorosa do Parque de Doñana.

O futuro da memória

O que resta, após o último cavalo passar pelo Santuário, é a pergunta sobre o que define a longevidade de uma cultura. Se a história nos ensina que a Saca de las Yeguas sobreviveu a séculos de mudanças drásticas, a dúvida que paira sobre as novas gerações é se a mesma paixão será suficiente para enfrentar os dilemas climáticos e sociais do próximo século. A tradição, afinal, é um organismo que precisa ser alimentado para não se tornar apenas um eco distante nas marismas. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España