O Banco Safra revisou suas estimativas para as principais construtoras do segmento de habitação popular no Brasil, ajustando os preços-alvo de Direcional, Cury, MRV, Plano & Plano e Tenda. A análise, que mantém recomendações de compra para a maioria das companhias, busca navegar em um cenário de maior cautela com a inflação de custos na construção civil, agravada por instabilidades geopolíticas recentes.

Segundo o relatório assinado pelos analistas Rafael Rehder e Olavo Fleming, o setor enfrenta uma deterioração no sentimento do mercado. Contudo, a tese central do banco é que a recente desvalorização das ações oferece pontos de entrada atrativos, uma vez que os fundamentos operacionais das empresas permanecem sólidos e capazes de absorver pressões inflacionárias.

A resiliência do modelo de negócio

A preocupação central do Safra reside nos impactos da inflação sobre os custos dos materiais de construção, um fantasma que assombrou o setor entre 2020 e 2022. O banco aponta que o conflito no Oriente Médio reacendeu temores de novos choques inflacionários, o que forçou uma reavaliação dos modelos financeiros das incorporadoras.

Contudo, a leitura do mercado é que o setor de habitação popular, especialmente o voltado ao programa Minha Casa, Minha Vida, possui mecanismos de defesa distintos. Empresas com maior previsibilidade em seu ciclo de obras e menor dependência de lançamentos concentrados conseguem, teoricamente, mitigar melhor a volatilidade de preços de insumos, mantendo margens mais protegidas em comparação a construtoras de alta renda.

Diferenciação por eficiência operacional

A Direcional permanece como a principal escolha (top pick) do banco. A justificativa reside na menor exposição a choques inflacionários, dado que seu mix de receita é fortemente ancorado na venda de estoques prontos, além de ganhos de eficiência que o mercado ainda não teria precificado totalmente. Projeções indicam um ROE médio de 43% para o biênio 2026-2027.

Enquanto empresas como a Cury mantêm fundamentos consistentes e seguem entre as destacadas do setor, a Tenda foi a única a receber um aumento nominal no preço-alvo no relatório, subindo de R$ 41 para R$ 46. O diferencial da companhia é seu ciclo de construção extremamente curto, entre 15 e 18 meses, frente à média do setor de 24 a 36 meses. Esse encurtamento reduz drasticamente o tempo de exposição da empresa a oscilações de custos, tornando-a uma aposta estratégica em momentos de incerteza macroeconômica.

Desafios e o peso da alavancagem

Nem todas as construtoras compartilham do mesmo otimismo. No caso da Plano & Plano, o corte agressivo no preço-alvo, de R$ 24 para R$ 12, reflete vendas mais fracas e um acúmulo de estoques que pressiona as margens. A recomendação de compra, mantida pelo Safra, baseia-se mais no desconto excessivo das ações do que em uma melhora imediata da operação.

A situação da MRV, por sua vez, é tratada com maior cautela. Com recomendação neutra e preço-alvo reduzido para R$ 7, a empresa enfrenta um desafio duplo: a alavancagem financeira elevada e as incertezas operacionais da Resia, seu braço de negócios nos Estados Unidos. A leitura é que a empresa necessita de uma desalavancagem mais clara antes de retomar a confiança dos investidores.

O que observar daqui pra frente

A capacidade das empresas em repassar custos e a resiliência da demanda habitacional, mesmo em um ambiente de juros e inflação desafiadores, serão os principais indicadores para os próximos trimestres. A divergência entre o desempenho da Tenda e as dificuldades da MRV evidencia que o setor de habitação popular não é um bloco homogêneo.

O mercado aguarda agora a execução das metas de vendas projetadas para 2026 e 2027. A sustentabilidade dos dividendos e o controle da alavancagem financeira serão os fatores decisivos para validar se o atual ponto de entrada nas ações é, de fato, uma oportunidade de valorização ou apenas uma armadilha de valor em um setor historicamente cíclico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times