A Saint Laurent escolheu o icônico Trocadéro, em Paris, como palco para o desfile de sua coleção Primavera Verão. Sob a direção criativa de Anthony Vaccarello, a marca buscou evocar uma memória espacial marcante da casa: o salão de baile do Hôtel InterContinental, onde Yves Saint Laurent apresentava suas coleções de alta-costura. A cenografia, concebida pela Bureau Betak, recriou a essência desse ambiente histórico através de três lustres monumentais, que suspensos no ar, delimitaram uma sala temporária a céu aberto.
Iluminação que Esculpe o Espaço
Em vez de uma reprodução literal do salão, a instalação focou nos elementos-chave: iluminação teatral, uma passarela formal, simetria e o brilho dourado característico. Os lustres gigantes, projetados para serem vistos de longe, funcionaram como um teto sem paredes, marcando o espaço da performance em meio à grandiosidade do Trocadéro. Essa abordagem transcendeu a mera decoração, transformando um código de design de interiores em uma peça de urbanismo cênico. A escala ampliada desses elementos desloca a referência da cópia para a abstração, permitindo que a memória da marca dialogue com a paisagem urbana de Paris.
Diálogo entre Arquivo e Contemporaneidade
A conexão com o Hôtel InterContinental é profunda na história da Saint Laurent. Yves Saint Laurent utilizava o local para criar um senso de ocasião elevada, cercado por lustres e interiores ornamentados. Vaccarello manteve essa formalidade, mas a transportou para um contexto radicalmente diferente: um espaço público expansivo, onde a própria cidade de Paris se torna parte integrante do cenário. Os três lustres, em sua proporção monumental, atuam quase como estruturas arquitetônicas temporárias, estabelecendo pontos de luz sobre a longa passarela, sem obscurecer a vista da Torre Eiffel e da paisagem parisiense. O resultado é um equilíbrio entre nostalgia e espetáculo, evitando a armadilha de um cenário puramente histórico.
O Brilho Dourado como Elo
O tom dourado permeia tanto a coleção quanto o ambiente. Tecidos como lamê, brocado e superfícies metálicas refletem a iluminação quente dos lustres, fazendo com que as peças de vestuário se tornem extensões móveis do próprio cenário. Sob as luzes, diferentes tonalidades de dourado transitam entre o reflexivo e o opaco, reforçando o diálogo material entre a passarela, as roupas e a cenografia. A instalação da Bureau Betak e de Vaccarello trata o arquivo da Saint Laurent não como algo a ser reproduzido, mas como um ponto de partida para ser ampliado, realocado e sutilmente exagerado. Um salão de baile se torna um ambiente externo, lustres se transformam em objetos de escala urbana, e o horizonte de Paris assume o lugar das paredes decoradas.
O Futuro da Memória em Cena
A abordagem da Saint Laurent no Trocadéro demonstra uma estratégia ousada para reinterpretar seu legado. Ao invés de se prender a recriações literais, a marca utiliza elementos icônicos de seu passado para criar experiências contemporâneas impactantes. A relação entre moda, arquitetura e espaço urbano é explorada de forma inovadora, utilizando a cidade como tela e os ícones da marca como pontuações visuais. O desfile se consolida como um evento que não apenas apresenta uma coleção, mas também redefine a forma como a memória de uma casa de moda pode ser ativada e percebida em pleno século XXI.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





