A Sanofi decidiu seguir um caminho divergente na adoção da inteligência artificial generativa, optando por desenvolver seu próprio ecossistema tecnológico em vez de licenciar ferramentas prontas de grandes fornecedores de software. Segundo reportagem da Fortune, o diretor digital da farmacêutica, Emmanuel Frenehard, rejeitou a implementação generalizada de soluções como o Copilot da Microsoft, classificando-as como custosas e de valor limitado para as necessidades específicas da companhia.
Essa estratégia culminou no lançamento do 'Concierge', um assistente de IA desenvolvido internamente que já atende 60 mil funcionários globalmente. A ferramenta integra dados de plataformas como ServiceNow e Workday, além de políticas organizacionais, permitindo que a empresa mantenha o controle total sobre suas informações e fluxos de trabalho, uma prioridade crescente para executivos de tecnologia em grandes corporações.
A busca pela soberania tecnológica
A decisão da Sanofi reflete uma mudança estrutural na forma como empresas de grande porte enxergam a integração de IA em seus processos. Ao evitar a dependência de agentes de IA oferecidos por terceiros, a companhia busca evitar o que Frenehard descreve como uma rede fragmentada de agentes que precisam se comunicar entre si. A visão da empresa é consolidar os fluxos de trabalho diretamente em um data lake centralizado, utilizando parcerias estratégicas com Snowflake e a startup Elementum AI para orquestração de processos.
Essa abordagem não é apenas técnica, mas também financeira. A Sanofi projeta economias anuais significativas, na casa dos milhões de euros, ao automatizar resoluções de TI e decisões de compras. Ao controlar a infraestrutura, a farmacêutica consegue customizar a experiência de software para suas necessidades, argumentando que as operações de uma gigante farmacêutica não devem espelhar as de concorrentes como Novartis ou AstraZeneca.
O impacto no modelo de SaaS
A postura da Sanofi coloca pressão sobre o modelo tradicional de negócios das empresas de software como serviço. Enquanto muitos fornecedores tentam emplacar agentes autônomos com taxas por usuário, clientes de grande porte estão começando a questionar a eficiência e o custo dessa dependência. O movimento da Sanofi sugere que a vantagem competitiva virá da capacidade de cada empresa de individualizar sua tecnologia, em vez de adotar padrões de mercado que tornam as operações genéricas.
Contudo, a transição não ignora o ecossistema de inovação externa. A Sanofi mantém parcerias com players como Anthropic, OpenAI e Formation Bio para áreas específicas como descoberta de medicamentos. O diferencial reside na seletividade: a empresa utiliza ferramentas externas para pesquisa científica, mas constrói internamente a infraestrutura que sustenta o dia a dia operacional de seus funcionários.
Desafios na transformação de fluxos
Embora a automação prometa ganhos, o processo de transformação não é linear. Frenehard reconhece que a implementação de IA dentro da própria equipe de TI enfrentou desafios, destacando que a tecnologia deve ser vista como uma ferramenta de eficiência e não como uma solução mágica para redução de pessoal. O executivo enfatiza que as economias de custo derivam da redução da dependência de fornecedores externos, evitando o atrito interno que a demissão de funcionários causaria.
O sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade da Sanofi em manter a escalabilidade do 'Concierge' e na eficácia da integração de dados entre sistemas legados e novas ferramentas de IA. A resistência em adotar o modelo de agentes de prateleira pode ser um prenúncio de uma tendência mais ampla, onde a soberania sobre o software se torna um pilar central da estratégia corporativa.
O futuro da infraestrutura corporativa
O que permanece em aberto é se outras empresas de capital intensivo seguirão o exemplo da Sanofi ou se a conveniência das plataformas de prateleira ainda prevalecerá. A evolução do mercado de IA continuará a testar a viabilidade de construir versus comprar, especialmente em setores altamente regulados. Observar como a Sanofi equilibra a inovação interna com parcerias externas será fundamental para entender o futuro da TI nas grandes corporações.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





