O governo de Santa Catarina oficializou, nesta segunda-feira (18), a implementação de um estado de alerta climático com vigência inicial de 180 dias. A medida, assinada pelo governador Jorginho Mello, não configura situação de emergência ou calamidade pública, mas funciona como um mecanismo preventivo para agilizar a mobilização de órgãos estaduais e o uso de recursos do Fundo Estadual de Proteção e Defesa Civil (Fundec).

A decisão reflete uma mudança de postura na gestão de riscos, focando na antecipação diante das previsões meteorológicas. Segundo informações divulgadas pelo governo estadual, o objetivo central é reforçar o monitoramento, investir na capacitação de equipes e modernizar barragens estratégicas que historicamente sofrem pressão durante períodos de chuvas intensas, como os observados em 1983 e 2023.

A dinâmica do El Niño no Sul

O fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, é o motor central dessa mobilização. Estudos recentes do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) e do Cemaden indicam uma probabilidade superior a 80% de consolidação do fenômeno a partir de julho deste ano. A expectativa é de que o impacto atinja seu auge entre o final de 2026 e o início de 2027.

Historicamente, o Sul do Brasil é a região mais suscetível a essas variações climáticas. A recorrência de episódios extremos exige que o poder público saia de uma lógica meramente reativa para uma postura de preparação estrutural. O decreto estabelece critérios objetivos para futuras declarações de emergência, como o registro de precipitações superiores a 80 milímetros em 24 horas, o que confere maior previsibilidade para a atuação municipal.

Mecanismos de resposta e prevenção

A estratégia de Santa Catarina baseia-se na descentralização da resposta, permitindo que servidores estaduais atuem de forma coordenada com a Defesa Civil. Ao autorizar o uso de recursos do Fundec antes que o desastre ocorra, o estado tenta mitigar os danos operacionais e financeiros que eventos climáticos impõem à infraestrutura pública e privada.

Essa abordagem é fundamental, pois a instabilidade climática não afeta apenas a segurança habitacional, mas também a resiliência econômica do estado. A manutenção de serviços essenciais e a proteção da logística regional dependem diretamente da capacidade de resposta rápida que o decreto busca institucionalizar.

Implicações para a segurança produtiva

O setor agropecuário, pilar relevante da economia catarinense, observa com cautela a movimentação. Institutos ligados ao governo federal têm alertado para o risco de chuvas excessivas afetarem culturas fundamentais como arroz, feijão e milho, o que pode gerar instabilidade na oferta de alimentos e pressão inflacionária. A integração entre a gestão climática e o planejamento agrícola torna-se, portanto, uma necessidade estratégica.

Além disso, o cenário de alerta serve como um teste para a coordenação entre as esferas municipal, estadual e federal. A capacidade de utilizar dados técnicos para orientar políticas públicas é o que diferenciará, nos próximos meses, a eficácia na proteção das populações vulneráveis e da infraestrutura estadual.

Perspectivas e incertezas

Embora o decreto ofereça um arcabouço para a prevenção, a eficácia real dependerá da agilidade na execução das obras de modernização de barragens e da precisão dos alertas emitidos. A incerteza quanto à intensidade exata do fenômeno em cada microrregião mantém a necessidade de vigilância constante por parte das autoridades.

O monitoramento dos próximos meses será crucial para avaliar se a mobilização antecipada será suficiente para conter os impactos. O estado segue em compasso de espera, equilibrando a preparação técnica com a imprevisibilidade inerente aos grandes eventos climáticos que o oceano, mais uma vez, sinaliza para o próximo ciclo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney