Seattle, outrora vista como um modelo de progresso e inovação, enfrenta um crescente sentimento de resignação em relação aos seus problemas urbanos. A cidade, que investe bilhões em soluções, parece incapaz de reverter o cenário de sofrimento e desordem nas ruas, gerando desconfiança entre os cidadãos e preocupação no setor empresarial. Essa estagnação motivou Joe Nguyễn, CEO da Seattle Metro Chamber, a visitar São Francisco — cidade que muitos consideravam perdida, mas que agora demonstra sinais de recuperação.
Em coluna de opinião publicada no GeekWire, Nguyễn relata que a experiência em São Francisco, sob a administração do prefeito Daniel Lurie, funcionou como um despertar. Ele observou que, em menos de dois anos, a cidade californiana registrou — segundo dados citados na coluna — uma queda de 22% nos crimes reportados no primeiro semestre de 2026 em comparação com o ano anterior. A taxa de vacância de escritórios também diminuiu, indicando melhora no ambiente de negócios. Embora os problemas profundos e o sofrimento humano persistam, a diferença crucial, na avaliação de Nguyễn, reside na confiança e na clareza de propósito dos líderes envolvidos. Eles sabem o que buscam e como avançar — algo que ele sente faltar em Seattle.
A Liderança como Motor de Mudança
Nguyễn contrasta a dinâmica de São Francisco com a de Seattle, onde, apesar do talento e dos recursos abundantes — incluindo servidores públicos dedicados e prestadores de serviço competentes —, a cidade parece paralisada pela inação. Ele atribui essa diferença à liderança. Em São Francisco, os líderes não apenas esperam que as instituições entreguem resultados, mas assumem a responsabilidade direta por isso. Essa postura contrasta com a tendência em Seattle de se resignar às limitações, onde boas intenções frequentemente falham por falta de decisões difíceis e responsabilização.
Um exemplo notável citado por Nguyễn é a abordagem de São Francisco aos mercados de drogas a céu aberto. Enquanto administrações anteriores se limitavam a reuniões, a gestão de Lurie deu um propósito claro à estrutura existente, exigindo que os participantes tomassem decisões e apresentassem evidências de mudanças concretas nas ruas. Essa agilidade e foco em resultados são contrastados com a lentidão e a falta de ação que Nguyễn percebe em Seattle, onde obstáculos menores se tornam desculpas aceitas.
Ações Concretas em Meio à Crise
Outro ponto de destaque na análise de Nguyễn é a criação do RESET Center em São Francisco. O centro visa preencher uma lacuna crítica: a falta de um local apropriado para acolher indivíduos em estado de intoxicação aguda. Anteriormente, a única opção era a prisão — que não abordava a necessidade de cuidados médicos — ou deixá-los na rua, gerando riscos. O centro, inaugurado em dez meses, oferece supervisão médica e conexão com serviços, representando um passo tangível, embora limitado, para lidar com uma crise complexa. Para Nguyễn, essa capacidade de implementar soluções em tempo razoável é um indicativo da eficácia da liderança em São Francisco.
A atitude de "ficar com o problema até que o próximo passo se torne possível" é, segundo ele, uma marca registrada da liderança observada. Isso envolve a disposição de questionar abordagens anteriores e admitir que evidências podem desafiar posições defendidas. Nguyễn argumenta que os valores progressistas de Seattle deveriam impulsionar mudanças quando as políticas falham em entregar os resultados prometidos — especialmente quando as pessoas continuam precisando de ajuda. A hesitação em reavaliar e adaptar políticas pode ser interpretada, na sua visão, como uma falha em honrar esses mesmos valores.
O Papel do Setor Privado e as Implicações para Seattle
Nguyễn também aponta para a necessidade de o setor empresarial em Seattle reavaliar seu próprio comportamento. A tendência de se afastar da política, mesmo quando as decisões públicas moldam o futuro dos negócios, é vista por ele como um erro. Em São Francisco, líderes empresariais se envolveram ativamente na definição da agenda e apoiaram políticos dispostos a agir. Para que Seattle melhore, a comunidade empresarial precisa se engajar e ajudar a moldar as decisões que determinarão seu futuro. Paralelamente, o governo precisa reafirmar que as empresas são bem-vindas e valorizadas.
A capacidade de uma cidade de cuidar tanto de um comerciante que busca segurança para seu estabelecimento quanto de uma pessoa em crise em frente à sua porta é, para Nguyễn, um reflexo de sua competência e de seus valores. As interações diárias dos cidadãos com a realidade urbana moldam sua percepção e confiança na cidade. A experiência em São Francisco sugere que a resignação pode ser superada quando as pessoas veem razões concretas para acreditar que seus esforços importam e que um futuro melhor é possível.
O Caminho à Frente
A principal lição que Nguyễn extrai de São Francisco para Seattle é que a mudança é possível quando há liderança focada e um senso compartilhado de propósito. A questão que permanece é se Seattle conseguirá reaver a expectativa de que pode, de fato, fazer melhor. A cidade possui os elementos necessários — talento, recursos e um desejo intrínseco de progresso. O desafio reside em traduzir essa promessa em ações tangíveis e resultados visíveis que restaurem a confiança dos cidadãos e revitalizem o espírito da cidade.
São Francisco demonstrou que é possível reverter um quadro de declínio com liderança assertiva e engajamento comunitário. A lição para Seattle, na avaliação de Nguyễn, é clara: o potencial existe, mas a ação decisiva e a responsabilização são cruciais para transformar essa promessa em um futuro palpável.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · GeekWire





