Uma retrospectiva no British Film Institute (BFI), em Londres, está reintroduzindo ao público a obra de Sarah Maldoror, uma das vozes mais importantes e, paradoxalmente, negligenciadas do cinema do século XX. Intitulada “A Poet with a Camera” (Uma Poeta com uma Câmera), a mostra é curada por sua filha, Annouchka de Andrade, que lidera um esforço meticuloso para resgatar o legado de sua mãe do esquecimento.

Nascida na França de pais guadalupenses, Maldoror se tornou uma figura central do cinema anticolonial, mas viu sua carreira ser marginalizada nas últimas décadas de vida. A redescoberta atual, impulsionada em parte por movimentos como o Black Lives Matter, transcende o mero ato de exibir filmes. Conforme detalha uma reportagem da revista britânica Little White Lies, trata-se de uma reflexão profunda sobre como a memória cultural é construída e quem tem o direito de ser lembrado.

A câmera como arma e poesia

Para Maldoror, não havia distinção entre arte e protesto. Sua trajetória foi forjada no calor dos movimentos de libertação. Após trabalhar como assistente no clássico A Batalha de Argel (1966), ela dirigiu seu primeiro curta, Monangambé (1968), que expunha a tortura sofrida por combatentes anticoloniais em Angola. O ápice dessa fusão viria com seu longa-metragem de 1972, Sambizanga, uma representação visceral da luta angolana por independência, mas também um retrato íntimo da força feminina na linha de frente.

O filme foi notado pela teórica feminista bell hooks, que destacou como as mulheres negras na tela de Maldoror eram retratadas de forma inédita: unidas, assombradas e corporificadas em seu luto. No entanto, sua obra, com 46 títulos, é muito mais vasta. Annouchka de Andrade, sua filha, insiste que o público precisa entender a riqueza de sua filmografia, que transitava entre o cinema, o teatro e a poesia. Para Maldoror, a poesia era sua identidade e sua principal ferramenta política.

O paradoxo da redescoberta

O resgate do trabalho de Maldoror é uma crônica sobre a luta contra a invisibilidade. Diante do ostracismo que a cineasta enfrentou no fim da vida — “ninguém queria trabalhar com ela ou apresentar seu trabalho”, lembra a filha —, Annouchka e sua irmã, Henda Ducados, fundaram a Associação de Amigos de Sarah Maldoror em 2018. A cineasta faleceu em 2020, no mesmo ano do assassinato de George Floyd, um momento que catalisou um interesse global por cineastas negros até então desconhecidos.

Ciente da natureza muitas vezes fugaz dessa atenção, a família agiu rápido. “Ficou claro que algo havia mudado, e tínhamos que aproveitar antes que fosse tarde demais”, afirma Annouchka. Essa onda de interesse viabilizou a restauração de Sambizanga, com o apoio do World Cinema Project, de Martin Scorsese, e da Cineteca di Bologna. O movimento expõe um paradoxo central: a necessidade de usar a visibilidade comercial, ainda que passageira, para garantir que um legado radical não seja novamente apagado pela indiferença do mercado.

O trabalho de Maldoror é um testemunho do poder da arte em confrontar o poder. O esforço de suas filhas, por sua vez, é uma lição sobre a própria natureza da memória: sua preservação não é um ato passivo, mas uma batalha ativa e contínua. É a luta para garantir que uma “poeta com uma câmera” não se torne uma nota de rodapé, mas permaneça uma voz potente e relevante em um mundo que ainda enfrenta as mesmas injustiças que ela filmou.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies