Imagine caminhar pelas ruas de Palma, não como um visitante em busca de sol, mas como alguém que precisa negociar cada centímetro de espaço público entre multidões que não cessam. Para os residentes das Ilhas Baleares, o cenário de 16 visitantes para cada habitante — totalizando 19 milhões de turistas em 2025 — deixou de ser apenas um dado estatístico sobre a economia para se tornar uma vivência de exaustão silenciosa. A Federação de Saúde Mental de Mallorca trouxe à luz uma verdade desconfortável: o custo da sustentabilidade econômica tem sido pago com a integridade emocional de quem sustenta o setor.

O peso do ambiente no bem-estar

A saúde mental, muitas vezes tratada como um assunto restrito aos consultórios médicos, é na verdade um reflexo direto do território que habitamos. Quando o custo de vida dispara, o acesso à moradia se torna um labirinto impossível e os espaços de lazer são tomados pela massa, o indivíduo perde o controle sobre seu ambiente cotidiano. A literatura científica é clara ao associar a insegurança residencial e a percepção de masificação a níveis elevados de ansiedade. Em Mallorca, o fenômeno do 'overtourism' não é apenas uma questão de trânsito ou lixo, mas um gatilho para um estresse crônico que corrói a qualidade de vida comunitária.

A precarização do trabalhador

Dentro das engrenagens do turismo, os trabalhadores enfrentam uma realidade de alta intensidade, sazonalidade e insegurança. Dados recentes indicam que as baixas laborais por questões de saúde mental dispararam na Espanha, com um aumento de 88% entre assalariados e 75% entre autônomos entre 2018 e 2023. O setor, que deveria ser o motor de prosperidade, impõe condições de trabalho que frequentemente ignoram a necessidade humana de estabilidade. Quando a jornada é irregular e o futuro é incerto, o resultado é uma fadiga que se acumula muito além do fim do expediente, afetando a saúde mental coletiva da região.

Sustentabilidade além da economia

O debate sobre a saturação turística precisa, portanto, ser expandido. Guillem Febrer, presidente da Federação, argumenta que não se pode falar em ilhas saudáveis se quem nelas vive experimenta uma sensação permanente de asfixia. A sustentabilidade social exige que o bem-estar emocional seja uma métrica de sucesso tão importante quanto o número de chegadas nos aeroportos. Ignorar esse fator é condenar o próprio modelo econômico a uma fragilidade estrutural, onde o capital humano é exaurido pelo excesso de demanda que ele mesmo precisa atender diariamente.

O futuro sob novas lentes

O que permanece em aberto é se as políticas públicas serão capazes de integrar essa visão multidimensional. A transição para um modelo que respeite o limite do território e a psique de seus habitantes é um desafio que vai muito além da gestão de infraestrutura. Até que ponto a economia de uma região pode prosperar à custa do silêncio e da saúde mental de seus cidadãos? Enquanto as cifras de visitantes continuam a subir, a pergunta que ecoa nas ruas de Palma é se ainda resta espaço para a vida cotidiana em um destino que se tornou, para muitos, um cenário de passagem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España