Lembre-se das séries dos anos 90. Famílias disfuncionais, mas unidas. Histórias que, apesar dos percalços, geralmente terminavam com uma nota de esperança. O engenheiro Victoriano Izquierdo, em um projeto pessoal impressionante, utilizou IA para quantificar essa sensação: quase 50% das séries daquela década podiam ser classificadas como "feel good". Hoje, esse percentual despenca para menos de 10%.

O que aconteceu? A análise de Izquierdo, que usou o Claude Opus 5.5 para avaliar sinopses de mais de 1.900 séries, aponta para um cinismo crescente. Títulos como "Os Simpsons", com sua dinâmica familiar peculiar, mas coesa, contrastam com "Rick e Morty" ou "Family Guy", onde a zombaria e o sarcasmo imperam. Em "Compañeros", a união escolar parecia um refúgio; em "Élite" ou "Física ou Química", o drama adolescente é tingido por realidades mais cruas e menos idealizadas. "Ted Lasso" surge como uma rara exceção, um farol de otimismo em um mar de escuridão.

A Deriva para o Cinismo

A mudança não se limita ao enredo. O perfil do espectador também parece ter influenciado. Séries familiares, que nos anos 80 representavam mais da metade das produções mais vistas, hoje mal chegam a 7%. A audiência adulta, por sua vez, viu a nota média "feel good" cair de 5,1 para 3,5 em uma escala de 10. Esse "escurecimento" das narrativas é parcialmente explicado pela ascensão de gêneros como ação, thriller e crime em detrimento da animação e comédia mais leves. No entanto, o fenômeno persiste mesmo dentro de gêneros similares, sugerindo uma mudança cultural mais profunda.

O Cinema, Uma Ilha de Otimismo?

Curiosamente, essa tendência sombria parece afetar mais as séries do que o cinema. Filmes, especialmente os espanhóis, têm mostrado uma evolução mais estável, e em muitos casos, um aumento no tom esperançoso. Uma hipótese para essa divergência é a percepção do cinema como um evento mais familiar e compartilhado, talvez incentivando narrativas que promovam união e otimismo. Em contraste, as séries, consumidas muitas vezes de forma individual e em um fluxo constante, podem refletir e amplificar um sentimento de apreensão crescente sobre o mundo.

Ecos do 11 de Setembro e uma Sociedade Pior?

Uma hipótese tentadora para explicar parte dessa virada é o impacto dos atentados de 11 de setembro de 2001. Pesquisas indicam que, no século XXI, séries passaram a abordar temas como medo, conspiração e insegurança, servindo como um mecanismo para processar o trauma coletivo. Títulos como "24 Horas", "Lost" e "Battlestar Galactica" frequentemente exploram ameaças persistentes e um senso de vulnerabilidade. Além disso, a IA de Izquierdo sugere que as sociedades retratadas nas séries atuais são percebidas como piores, mais distópicas, refletindo um pessimismo geral sobre o estado do mundo.

Perguntas em Aberto

Essa análise, embora baseada em sinopses e não na experiência visual completa das séries, levanta questões pertinentes. Se as séries são um espelho da sociedade, o que essa predominância de narrativas sombrias revela sobre nosso estado de espírito coletivo? Estariam os criadores simplesmente respondendo a uma demanda por realismo mais cru, ou estariam ativamente moldando nossa percepção do mundo para um tom mais cínico? A IA, com sua capacidade de processar vastos volumes de dados, nos oferece um vislumbre quantitativo de uma mudança qualitativa que muitos de nós já sentimos ao ligar a TV.

A tela, antes um portal para o escapismo otimista, parece agora refletir um mundo mais complexo e, por vezes, mais sombrio. A pergunta que fica é se essa tendência é um reflexo passageiro de tempos turbulentos ou uma mudança permanente no contrato entre a narrativa televisiva e seu público.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka