A Flock Safety, startup especializada em tecnologia de vigilância, planejava transformar motoristas de Uber, Lyft e serviços de entrega em uma vasta rede de monitoramento móvel. Segundo uma apresentação da empresa obtida pelo site 404 Media, a companhia pretendia usar câmeras de painel (dashcams) instaladas em cerca de 350 mil veículos para escanear automaticamente placas de carro por onde passassem.

A proposta, apresentada ao gabinete do Procurador-Geral do estado da Geórgia, nos EUA, envolvia uma parceria com a Nexar, uma popular fabricante de dashcams. Embora a Flock tenha afirmado ao 404 Media que o acordo nunca foi executado, os documentos revelam a ambição da empresa de cooptar a infraestrutura da gig economy para expandir drasticamente seu alcance, levantando um debate sobre os limites entre segurança e vigilância privada.

A gig economy como infraestrutura

O modelo de negócio da Flock se baseia em câmeras fixas que leem placas de veículos (tecnologia conhecida como ALPR), vendendo acesso a essa base de dados principalmente para agências de segurança e condomínios. A parceria com a Nexar representaria um salto qualitativo: de uma rede estática para um sistema de vigilância dinâmico e onipresente, alimentado por cidadãos comuns durante seu trabalho.

O ponto mais sensível é a aparente ausência de consentimento informado. Não fica claro na apresentação se as empresas de aplicativo ou os próprios motoristas seriam notificados de que seus veículos estariam coletando dados para uma empresa de vigilância. O episódio ecoa práticas de outras companhias do setor, como a Vigilant Solutions, que usa carros de agências de recuperação de veículos para o mesmo fim, mas a escala potencializada pela gig economy é inédita.

O apetite por dados

Este não é um caso isolado no histórico da Flock. Reportagens anteriores do mesmo 404 Media revelaram que a empresa explorou a criação de uma ferramenta de busca de pessoas que utilizaria dados hackeados para conectar uma placa de carro a um indivíduo — um plano abandonado após a exposição na imprensa. O padrão sugere um apetite contínuo por cruzar fontes de dados e expandir as fronteiras do que é tecnicamente possível e legalmente defensável.

A tendência de reaproveitar câmeras existentes para vigilância se espalha. Outra empresa, a BusPatrol, planeja transformar as câmeras de milhares de ônibus escolares em leitores de placas para uso policial. A lógica é economicamente atraente: usar ativos já dispersos na sociedade para criar uma nova camada de dados de segurança. A Flock pode ter recuado desta vez, mas a ideia de transformar serviços do cotidiano em olhos para o Estado e para empresas privadas já foi plantada. A questão que permanece é quem definirá as regras para esse novo ecossistema de vigilância e onde será traçada a linha para proteger a privacidade no espaço público.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 404 Media