O espaço sideral está se tornando um novo campo de batalha. Em maio de 2026, a proximidade de quatro satélites militares russos com um satélite privado de radar, amplamente utilizado para inteligência na Ucrânia, gerou preocupação na indústria espacial. Essa manobra, considerada de "zona cinzenta" e potencialmente agressiva, destacou a vulnerabilidade de satélites ocidentais e impulsionou a busca por tecnologias de defesa orbital.

Nesse cenário, a startup britânica Shield Space surge com uma proposta ambiciosa: aplicar as lições da guerra de drones na Ucrânia ao ambiente espacial. A empresa planeja desenvolver enxames de até 100 "cubesats", pequenas espaçonaves autônomas e de baixo custo, projetadas para atuar como interceptoras e proteger satélites ocidentais. Lançados de um veículo transportador do tamanho de um carro em órbita terrestre, esses "drones espaciais" do tamanho de micro-ondas marcarão um novo estágio na evolução da guerra orbital.

Guerra em Órbita: O Conceito de Enxames Autônomos

A Shield Space afirma que seus drones espaciais utilizarão "efetores" como lasers ou micro-ondas, além de técnicas de "bloqueio cinético", para defender satélites, mesmo que percam contato com o controle em terra. Graeme Ritchie, cofundador e CEO da Shield Space, destacou o potencial econômico da iniciativa: "Estamos falando de implantar 100 cubesats em uma missão de proteção e defesa por menos de £100 milhões [cerca de US$ 134 milhões], um valor que antes seria pago por um único satélite".

O projeto Starling da NASA, lançado em 2023, já demonstrou a capacidade de um enxame de quatro pequenos satélites cooperarem e operarem autonomamente no espaço em missões científicas, sem depender excessivamente de comandos em tempo real. Embora o objetivo da Shield Space seja mais voltado para missões de defesa e adversariais, o conceito de operação autônoma em enxame é um passo fundamental. As principais potências espaciais, no entanto, relutam em divulgar suas capacidades de guerra espacial, o que torna difícil avaliar o estado atual do desenvolvimento de combate em enxames no espaço.

Desafios Tecnológicos e o Caminho para a Autonomia

A jornada para concretizar essa visão envolve superar desafios tecnológicos significativos. A miniaturização de sistemas de propulsão, energia, computação de IA, sensores e armamentos em satélites pequenos e leves é uma tarefa complexa. Ritchie reconhece as dificuldades de "tamanho, peso e potência", mas enfatiza a inovação "do zero" em alguns elementos da missão, com o objetivo de economizar espaço e integrar sistemas de forma eficiente.

Dan Molland, cofundador e CTO da Shield Space, explicou que a empresa encomendou à EnduroSat a construção de um cubesat autônomo 8U com propulsão química e capacidade de coleta de imagens, onde o software da Shield Space será implementado. O projeto "Project Broadsword", planejado para o quarto trimestre de 2027, demonstrará operações de aproximação e proximidade (RPO) com duas pequenas espaçonaves em diferentes estágios de autonomia, utilizando o lançamento da SpaceX.

Implicações e a Corrida por Capacidades Defensivas

A capacidade de treinar modelos de IA para missões totalmente autônomas no espaço é um obstáculo considerável, pois os dados necessários não estão prontamente disponíveis, ao contrário do que ocorre no contexto da guerra na Ucrânia. Ritchie aponta que, embora dados sintéticos possam ser usados, "eles não são bons o suficiente para o espaço". A coleta de dados de missões como a da Shield Space é crucial para o avanço da autonomia espacial.

Além disso, a complexidade da IA necessária para um sistema de combate é muito maior do que a de um simples sistema de orientação. Molland compara a situação com o projeto Starling, onde a tarefa principal era manter uma certa distância de outro satélite. Em uma missão militar, as questões a serem resolvidas são exponencialmente mais complexas, incluindo a conformidade da IA com as regras de engajamento. Bleddyn Bowen, professor de astropolítica, compara o conceito com o "Brilliant Pebbles" da Guerra Fria, um programa de defesa antimísseis que visava usar milhares de interceptadores autônomos. Ele ressalta que, com investimento suficiente, muitas coisas são factíveis, mas anos de desenvolvimento e testes, especialmente a resolução de como testar armas cinéticas sem gerar detritos, serão necessários, além de encontrar compradores para o sistema.

O Futuro da Guerra Espacial e Perguntas em Aberto

A Shield Space planeja uma agenda agressiva de demonstrações, começando com o RPO e progredindo para testes com cubesats maiores e, eventualmente, um "super carrier" com múltiplos transportadores em diferentes órbitas. A visão futura, descrita como "ataque de porta-aviões baseado no espaço", visa proteger e defender órbitas inteiras com capacidade de lançamento responsivo ou transportadores pré-posicionados.

O futuro da guerra, como demonstrado na invasão da Ucrânia, inclui o uso de enxames de drones autônomos de baixo custo. A Shield Space está apostando que essa tendência se estenderá à fronteira final. As questões que permanecem em aberto são quantas dessas ambições tecnológicas se concretizarão em face dos desafios de engenharia, financiamento e das complexidades inerentes à militarização do espaço. A corrida para desenvolver capacidades defensivas orbitais está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com