A fotografia de estoque, frequentemente descartada como um produto banal e clichê da cultura visual contemporânea, desempenha um papel mais profundo na construção do imaginário coletivo. Em seu novo livro, 'Stock Photo' (2026), a pesquisadora Simona Supekar argumenta que essas imagens funcionam como um registro histórico de valores sociais, moldando o que esperamos ver no mundo real através da repetição exaustiva em telas.

O trabalho de Supekar, publicado pela editora Bloomsbury, investiga como bancos de imagens digitais consolidaram hierarquias raciais e de gênero ao longo das últimas décadas. Ao analisar a transição desses repositórios para a era da inteligência artificial, a autora alerta para um ciclo de retroalimentação onde preconceitos históricos são codificados e amplificados por modelos generativos que buscam preencher lacunas de representação com estereótipos digitais.

O legado dos estereótipos digitais

Supekar utiliza sua experiência profissional como curadora de palavras-chave para bancos de imagens nos anos 2000 para desconstruir a mecânica por trás desses acervos. Ela aponta casos alarmantes, como a busca por termos específicos que, durante anos, retornaram resultados carregados de estigmas raciais, reforçando o conceito de 'cybertypes' da estudiosa Lisa Nakamura — a tendência da cultura online de achatar e rotular comunidades minoritárias.

Essa curadoria, muitas vezes realizada sem uma reflexão crítica sobre o impacto social, acabou por criar um pano de fundo visual para o discurso público online. A autora questiona a responsabilidade da indústria na criação desses arquétipos visuais, sugerindo que o trabalho de indexação e categorização de imagens não era apenas uma tarefa técnica, mas um ato de definição cultural sobre quem pertence a cada grupo social.

A transição para a inteligência artificial

O cenário atual, dominado pela IA, apresenta um novo desafio. Supekar observa que, ao buscar termos como 'maternidade' e 'indiano' em plataformas contemporâneas, os resultados são majoritariamente gerados por máquinas. Isso indica que a IA está tentando preencher lacunas de representação que nunca foram adequadamente supridas pelos bancos de dados humanos, baseando-se em padrões estatísticos que frequentemente replicam preconceitos do passado.

O problema reside no fato de que os modelos de IA aprendem a partir de vastos conjuntos de dados históricos. Se o material de treinamento é enviesado, a saída gerada será, por definição, uma representação distorcida da realidade. A autora levanta questões sobre se é possível inventar tecnologias capazes de alterar perspectivas humanas que, historicamente, falharam em reconhecer a humanidade de certos grupos.

Implicações para o ecossistema digital

As implicações dessa análise atingem desde empresas de tecnologia que desenvolvem modelos de IA até reguladores que buscam mitigar vieses algorítmicos. A normalização de imagens estereotipadas em ferramentas de busca e criação de conteúdo cria uma percepção de normalidade que, a longo prazo, pode endurecer preconceitos sociais, tornando a correção desses vieses uma tarefa cada vez mais complexa.

Para o mercado brasileiro, onde a diversidade é um pilar central, a reflexão de Supekar ressoa como um alerta sobre a importância da curadoria humana na tecnologia. A dependência de modelos globais de IA, treinados majoritariamente em bancos de dados do Norte Global, pode resultar em uma invisibilidade ou caricaturização da realidade local caso não haja uma intervenção consciente no desenvolvimento dessas ferramentas.

O futuro da representação visual

O que permanece incerto é a capacidade da indústria de tecnologia em reformular seus datasets para além da eficiência algorítmica. A obra de Supekar não oferece respostas simples, mas convida a uma reflexão sobre a responsabilidade ética na construção de um futuro visual que ainda está sendo moldado por máquinas.

O leitor é deixado com a provocação de como podemos, individual e coletivamente, desafiar essas estruturas de poder visual. A trajetória da fotografia de estoque, de um simples recurso comercial para uma ferramenta de influência cultural, serve como um espelho para as escolhas que fazemos hoje sobre a tecnologia e a representação humana.

Com reportagem de Brazil Valley

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