A Simpar, um dos maiores conglomerados multissetoriais do país, alterou sua bússola estratégica para os próximos anos. Após um ciclo de expansão agressiva que moldou sua estrutura atual, a companhia agora prioriza a consolidação de seus ativos em detrimento de novas aquisições. Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO Fernando Simões afirmou que o momento atual do mercado, marcado por juros elevados, torna a busca por novos alvos menos atrativa diante da necessidade de extrair valor dos negócios já integrados ao portfólio.

O executivo ressaltou que a decisão não reflete uma postura defensiva, mas uma leitura prudente da conjuntura econômica. Com uma estrutura que abrange desde a locação de veículos com a Movida e a gestão de frotas da JSL até concessões de infraestrutura, a Simpar busca agora garantir a sustentabilidade de cada braço de negócio. Segundo a companhia, a meta é assegurar que o crescimento orgânico prevaleça sobre a alavancagem externa em um cenário onde o custo do capital impõe desafios operacionais significativos.

O fim da era das aquisições rápidas

Durante a última década, a Simpar consolidou sua posição no mercado brasileiro através de uma série de aquisições que diversificaram drasticamente sua atuação. A estratégia, no entanto, atingiu um ponto de inflexão em 2024, quando o grupo encerrou um ciclo importante de investimentos. Para a alta gestão, o desafio agora é a integração e a otimização desses ativos, garantindo que a complexidade do conglomerado não comprometa a eficiência operacional de cada empresa controlada.

Simões enfatiza que a disciplina na alocação de capital é fundamental para evitar problemas futuros. Ao completar 70 anos de história, o grupo tenta aplicar a experiência acumulada para identificar sinais de mercado que possam antecipar desequilíbrios. A cautela atual, portanto, é menos sobre o endividamento — que a companhia mantém sob controle com uma alavancagem de 2,8 vezes o Ebitda no primeiro trimestre — e mais sobre a maturidade da estratégia de longo prazo.

Mecanismos de adaptação ao custo de capital

O custo dos juros atua como um filtro rigoroso para qualquer nova oportunidade de expansão. Quando o capital é caro, a viabilidade de aquisições exige uma margem de segurança que o mercado atual raramente oferece. A Simpar, ao reconhecer essa realidade, direciona seus esforços para a gestão de custos e a precificação correta de seus serviços, especialmente em setores sensíveis como o transporte, onde a volatilidade dos preços dos combustíveis pressiona as margens de lucro.

O executivo observa que a capacidade de repassar aumentos de custos aos clientes é um diferencial competitivo. Em um mercado fragmentado, muitas empresas perdem rentabilidade por não conseguirem ajustar seus preços, enquanto a Simpar aposta na sustentabilidade do negócio como um pilar de sobrevivência. Essa abordagem reflete uma mudança de foco: em vez de aumentar o tamanho da receita através de compras, o objetivo é proteger e otimizar a margem de cada contrato.

Implicações para o setor de infraestrutura

Embora as aquisições estejam em segundo plano, a companhia mantém o apetite por projetos específicos que ofereçam previsibilidade, como as Parcerias Público-Privadas (PPPs). A entrada da CS Infra no segmento de infraestrutura social, com o contrato do projeto Mais Escolas Paraná, exemplifica essa tese. Ao assumir não apenas a construção, mas a gestão de serviços de apoio por longos períodos, o grupo busca fluxos de caixa estáveis que se beneficiam da expertise operacional já consolidada.

Para o mercado e investidores, o movimento da Simpar sinaliza uma transição para uma fase de maior foco em resultados operacionais. O desafio para os próximos anos reside em provar que a estrutura diversificada do grupo consegue entregar eficiência sem a necessidade constante de novas injeções de capital via aquisições. A estratégia de crescimento orgânico será, portanto, o principal termômetro da disciplina da gestão diante de um ambiente macroeconômico ainda incerto.

Perspectivas e incertezas no horizonte

Apesar da clareza na estratégia de consolidação, o futuro da Simpar permanece atrelado à volatilidade dos juros e aos custos operacionais. A habilidade da empresa em manter a alavancagem em patamares saudáveis enquanto navega por um cenário de demanda flutuante será o ponto central de observação para analistas. A questão que permanece é se o mercado reagirá positivamente a essa postura mais contida, privilegiando a estabilidade em detrimento da expansão acelerada que caracterizou a última década do grupo.

O sucesso dessa transição dependerá da capacidade da companhia de manter a coesão entre suas diversas frentes de negócio. Em um cenário de incertezas, a disciplina em dizer não a novas oportunidades pode ser tão valiosa quanto a agressividade que, no passado, definiu o crescimento do conglomerado. O mercado observará de perto se essa estratégia será suficiente para sustentar o valor da companhia a longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea