A convocação de uma greve geral, especialmente quando impulsionada por figuras proeminentes no cenário sindical, transcende o mero ato de paralisação trabalhista. Ela se torna um palco para o debate público sobre as mazelas econômicas e sociais que afligem uma nação. No caso da Espanha, o secretário-geral da CCOO, Unai Sordo, tem utilizado sua voz para instigar uma reflexão profunda, convidando não apenas os trabalhadores formais, mas também os autônomos, a se unirem em um ato de protesto no dia 11 de novembro. A motivação por trás desse chamado é clara: defender o "interesse próprio" em um contexto onde o "rentismo" parece sufocar a economia produtiva e onde o acesso à moradia digna se torna um luxo inatingível para muitos.
Sordo não hesita em questionar as dinâmicas que levam a um aumento vertiginoso nos preços dos aluguéis comerciais, que, segundo ele, dispararam 18,6% nos últimos três anos. Essa escalada, argumenta o sindicalista, impede que muitos negócios prosperem, limitando contratações e forçando o aumento de preços. A crítica se estende ao setor imobiliário, visto como um entrave ao desenvolvimento econômico. A tese é que uma redução de 30% no preço da habitação na Espanha poderia liberar recursos significativos para as famílias, gerando entre 311.000 e 450.000 novos empregos através do consumo nos próximos cinco anos. Essa visão contrapõe a "economia produtiva" a um "negócio de rentismo cautivo", onde o custo de vida é imposto à população sem alternativa.
A greve de 11 de novembro, para Sordo, deve ser mais do que um dia de paralisação; deve ser uma "movilização social histórica". O objetivo é defender a moradia como um pilar do Estado de Bem-Estar do século XXI. Diante do que ele descreve como "bloqueio" nas negociações por parte da CEOE (Confederação Espanhola de Organizações Empresariais), o chamado à greve também se estende à negociação coletiva e à recuperação salarial. A mensagem é inequívoca: a mobilização nas ruas e a paralisação nos locais de trabalho são ferramentas sérias para reivindicar direitos e garantir que os trabalhadores não sejam deixados para trás em um cenário de crescente desigualdade.
O líder sindical detalha que a questão da moradia exige mais do que medidas regulatórias. É fundamental impedir despejos de famílias vulneráveis, conter o aumento abusivo dos aluguéis em renovações de contrato e coibir a especulação de fundos de investimento que acaparam imóveis. O grande desafio, segundo Sordo, é a construção de uma infraestrutura pública de habitação acessível, com a meta de pelo menos 1,5 milhão de novas unidades na próxima década. Sem essa base pública, a crise habitacional na Espanha, que ele classifica como um "escândalo", persistirá. A vinculação entre moradia e salários é outro ponto crucial: desde 2013, os preços dos imóveis subiram 3,6 vezes mais do que os salários, anulando qualquer ganho negociado em acordos coletivos.
Além da crise habitacional, Sordo aponta a inflação como um fator que "atenaza" as famílias trabalhadoras. Embora reconheça a natureza global de parte dessa inflação, ele critica a forma como empresas com poder de mercado estariam "melhorando seus benefícios à custa de incrementar o preço da cesta da compra da classe trabalhadora". A experiência de 2021, quando aumentos nos custos de energia e matérias-primas foram repassados aos consumidores sem um repasse proporcional aos salários, serve como um alerta. Por isso, o CCOO reivindica um acordo de convenios coletivos que eleve os salários entre 4% e 7%, e que o Salário Mínimo Interprofissional (SMI) suba 7%.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





