A sinestesia não é uma raridade neurológica que explica gênios artísticos. É, segundo Richard Cytowic, professor de neurologia da George Washington University e autor de Synesthesia: A Union of the Senses (MIT Press), evidência de que o cérebro humano opera por padrão com cruzamentos sensoriais — e que a maioria das pessoas simplesmente os suprime com mais eficiência.

A proporção citada por Cytowic — 1 em 23 pessoas — já é suficientemente alta para deslocar a sinestesia da categoria de curiosidade clínica para variante funcional. Para quem a experimenta, uma terça-feira não é apenas um nome de dia: é marrom, inclinada para a esquerda e tem sabor metálico. Essas associações são involuntárias, consistentes ao longo do tempo e específicas para cada indivíduo. Não se trata de metáfora nem de imaginação ativa.

O argumento da universalidade latente

A tese central de Cytowic é mais radical do que parece: o cross-wiring — a conexão entre áreas sensoriais normalmente separadas — não é exclusivo dos sinestetas. Está presente em todos os cérebros humanos, apenas operando abaixo do limiar da percepção consciente na maioria das pessoas. O que diferencia um sinesteta de um não-sinesteta não seria a presença ou ausência dessas conexões, mas o grau de inibição que o cérebro aplica sobre elas.

Essa hipótese tem precedentes na neurociência do desenvolvimento. Bebês recém-nascidos apresentam conexões sensoriais cruzadas muito mais densas do que adultos — um processo chamado pruning sináptico vai eliminando conexões redundantes ao longo da infância. A sinestesia, nessa leitura, seria menos uma aquisição e mais uma retenção: cérebros que preservaram, em maior grau, conexões que a maioria perdeu na maturação.

A comparação com o pruning é relevante porque desloca a narrativa. Em vez de perguntar "o que há de diferente no cérebro sinesteta", a pergunta mais produtiva passa a ser: "o que o cérebro típico descartou, e por quê?"

Artistas, percepção e o que a neurologia não resolve

A associação entre sinestesia e produção artística é documentada há mais de um século. Wassily Kandinsky pintava sons. Alexander Scriabin compôs uma sinfonia com partitura de luz. Vladimir Nabokov descrevia letras com cores precisas em suas memórias. O que Cytowic acrescenta a essa lista não é apenas mais nomes, mas uma estrutura explicativa: esses artistas não percebem o mundo de forma "mais rica" por talento ou sensibilidade cultivada, mas porque seu sistema nervoso entrega ao córtex consciente informações que outros cérebros filtram antes de chegarem à superfície.

Isso tem implicações para além da estética. Se a percepção ordinária já é uma construção ativa — o cérebro descartando mais do que registra —, então o que chamamos de "realidade" é sempre uma versão editada. A sinestesia torna esse processo de edição visível por contraste. Cytowic, cujo livro Your Stone Age Brain in the Screen Age examina como o cérebro paleolítico lida com estímulos digitais, parece interessado precisamente nessa tensão entre o que o sistema nervoso foi moldado para processar e o que o ambiente contemporâneo exige dele.

O que permanece em aberto é a direção causal: a sinestesia favorece a produção artística, ou artistas — por treinamento perceptivo intensivo — tornam-se mais conscientes de conexões sensoriais que já existiam? Cytowic aponta para a primeira hipótese, mas a segunda não está descartada. A neurologia descreve o mecanismo; a questão sobre o que fazer com essa descrição ainda pertence a outro campo.

Fonte · The Frontier | Society