O mercado acionário brasileiro tem apresentado um movimento de forte valorização em segmentos específicos, com destaque para as chamadas small caps. Em apenas três pregões, 18 ações registraram alta superior a 20%, sendo que 17 delas pertencem ao índice de small caps. A exceção é a Localiza, que mesmo assim valorizou 20,5% no período. Apenas sete dessas ações estão no Ibovespa, e com pesos reduzidos. Enquanto o Ibovespa operava com volatilidade, caindo após uma alta inicial e depois recuperando parte das perdas, o índice de small caps avançou 12% entre segunda e quarta-feira, e continuou a subir no dia seguinte.

O Contraste com o Ibovespa

A percepção geral, ao observar apenas o Ibovespa, poderia levar à conclusão de que o rali de segunda-feira se dissipou. No entanto, o panorama do mercado mais amplo revela uma dinâmica diferente. Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP, aponta que o movimento de alta se concentrou em empresas de menor porte, muitas das quais estavam subvalorizadas há anos. Tradicionalmente, ralis começam com as large caps, mais líquidas, e só depois se estendem às small caps. Desta vez, porém, o motor principal parece ser a expectativa de uma queda mais acentuada da taxa básica de juros (Selic) do que o previamente precificado pelo mercado.

O Impacto da Queda da Selic

Empresas com forte exposição à economia doméstica e sensibilidade às taxas de juros são as mais beneficiadas por um cenário de Selic em declínio. Uma parte considerável dessas companhias se enquadra na categoria de small caps. A concretização desse cenário, contudo, está atrelada à apresentação de um ajuste fiscal crível por parte do governo. Muitos gestores, antecipando essa tendência, já iniciaram a compra de papéis que estavam esquecidos no portfólio há bastante tempo, buscando capturar o potencial de valorização.

Fluxo e Antecipação de Gestores

O fluxo de capital para as small caps tem se intensificado, proveniente principalmente de fundos locais que estão alocando caixa e rotacionando suas carteiras de large caps para empresas menores. Há também um ingresso tímido de recursos estrangeiros. Um gestor observou que o movimento tem um teto, pois depende da capacidade de cada gestor em movimentar suas carteiras. A entrada expressiva de recursos em fundos de ações ainda deve levar algum tempo. Investidores estrangeiros, embora limitados pela baixa liquidez, também demonstraram interesse em cestas de ações de empresas domésticas.

Implicações e Cautela

O movimento de alta nas small caps contrasta com a desvalorização de ações de commodities e exportadoras, que sofrem com a valorização do real. Empresas como Embraer, Suzano e Vale apresentaram quedas nesta semana. A volatilidade observada, especialmente a entrada massiva de capital estrangeiro no início da semana seguida por uma desaceleração, sugere uma antecipação cautelosa do mercado em relação aos desdobramentos econômicos e políticos. O fluxo estrangeiro recorde na segunda-feira, seguido por uma queda abrupta, indica que a confiança ainda é um fator a ser construído.

O rali em curso nas small caps, impulsionado pela expectativa de juros mais baixos e pela busca por valor esquecido, demonstra a agilidade do mercado em precificar cenários futuros. Resta observar se a sustentação desse movimento virá acompanhada de um ajuste fiscal crível e de uma maior liquidez para atrair um fluxo mais robusto de capital, tanto local quanto internacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech